Recentemente, enquanto organizava a minha mesa do escritório, entre uma coisa e outra, encontrei uma frase escrita por mim que me fez parar o que estava fazendo e refletir: anular-se na maturidade é como renunciar às páginas finais do seu próprio livro.
Há um silêncio eloquente que costuma pairar sobre as mulheres que alcançam essa fase. Após décadas dedicadas à escrita minuciosa de capítulos inteiros para o benefício alheio — seja no papel de mãe, de profissional, de esposa ou de filha, muitas se veem diante de uma encruzilhada existencial. É a tentação de desistir do próprio desfecho e de sua biografia.
O peso de ser “tudo para todos” cobra um pedágio alto: o silenciamento da própria voz. No acúmulo de funções que a sociedade nos impõe, perdemos de vista o lugar de retorno. E o equilíbrio real na maturidade não reside na busca inglória pela perfeição em todas as frentes, mas sim na sabedoria de saber exatamente para onde voltar quando o mundo exige demais de nós.
É comum observarmos mulheres que, ao ultrapassarem a barreira dos 50 anos, iniciam um processo de retração de seus sonhos. Como se, após cumprirem o rito social de educar e prover, o espaço para o desejo individual devesse ser compulsoriamente interditado. É o fenômeno do autoabandono, onde a impressão que se tem é a de que elas simplesmente desistem de si mesmas.
Observo que esse cenário vem mudando nos últimos anos, mas por que as mulheres, sobretudo as maduras, ainda se abandonam? É um fenômeno intrigante e doloroso.
Existe uma tendência cultural de começar a diminuir os sonhos justamente quando o horizonte deveria estar mais limpo. É verdade que já cumprimos o nosso papel. Quem é mãe, já educou; quem é profissional, já construiu. Mas o cumprimento desses ritos sociais não deveria ser um ponto final, e sim um "agora sim". Agora é a hora de fazer aquilo que, de fato, nos diz a alma.
O autoabandono ocorre quando a mulher madura olha para o espelho e não reconhece mais os seus desejos, pois eles foram soterrados por anos de "utilidade".
É hora de reivindicar a SUA autoria. Nesse contexto, a arteterapia e os processos de autoconhecimento emergem como territórios sagrados de resgate. Não se trata de técnica ou estética, mas de delimitar uma fronteira necessária: aquela onde o "eu" finalmente prevalece sobre as expectativas externas.
Através desse fazer criativo, a mulher consegue processar o que lhe pede a essência, impedindo que ela se anule no meio do caminho. É a reconexão com a individualidade. A maturidade não deve ser o momento de diminuir o horizonte, mas sim o de expandi-lo com plenitude e autenticidade.
Pergunto a você: quando foi a última vez que você fez algo puramente por você, sem considerar a utilidade para o mundo ou o prazer de outrem? Não renuncie ao final da sua história. O seu lugar de retorno ainda lhe pertence. É hora de sonhar, porque agora, finalmente, temos a liberdade para sermos quem realmente somos.
(*) ISOLDA RISSO é empresária, cronista, coach de vida e terapeuta. Mulher 60+, mãe de um lindo casal de filhos, é graduada em Gastronomia, entusiasta da arteterapia e apaixonada por fotografia e arranjos florais. Curiosa de nascença, define-se como uma aprendiz da vida e um ser a caminho da evolução
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