Para entender melhor os pormenores da camisa, o Estadão conversou com Gustavo Viana, diretor de marketing da Fisia, distribuidora da Nike no Brasil. A reportagem também ouviu a avaliação de especialistas em moda a fim de se aprofundar na estética e também em outros aspectos ligados às peças, vendidas a R$ 349,99.
A Nike não revela as projeções de venda, mas afirma que o "o ritmo de saída está acelerado". Houve cerca de dez vezes mais unidades vendidas este ano em comparação com os dois primeiros dias do lançamento dos uniformes de 2022 com o de 2018, para a Copa do Mundo da Rússia, quando o Brasil ficou pelo caminho diante da Bélgica.
Como um dos principais símbolos da fauna do País, a onça-pintada foi escolhida como fonte de inspiração para os uniformes. Trata-se de uma tendência de moda conhecida como "animal print", na qual a roupa é feita para se assemelhar ao padrão da pele de animais como leopardo, onça, zebra e tigre.
A aposta foi em uma estética rara de se ver nos trajes futebolísticos, geralmente sem desenhos e detalhes mais chamativos. "Quando vimos uma onça, com o conceito de força e brasilidade, numa peça de futebol, um universo extremamente masculino, dá uma certa chocada. Estamos acostumados a ver camisas um pouco mais tradicionais", salienta o figurinista Paulo Paranhos, de 36 anos.
"GARRA BRASILEIRA"
As peças foram desenvolvidas, segundo os criadores, com o pensamento de unir tradição, inovação, tecnologia e sustentabilidade. "A postura e o visual da onça simbolizam o espírito e a garra dos brasileiros e das brasileiras e também influenciam a moda, a música e muitos outros aspectos da cultura jovem", explica Viana.
"No resumo, conseguimos criar um uniforme inovador, mas que traz elementos bastante tradicionais e com conexão com a cultura e bandeira brasileira", considera o diretor de marketing da fornecedora. As peças foram produzidas a partir do aprendizado da coleção da seleção da Nigéria de 2018. Aquela ousada camisa verde clara com setas em branco e estilo rabiscado foi a sensação da Copa do Mundo da Rússia.
Viana conta que os criadores embarcaram "em uma imersão cultural profunda do Brasil para entregar uma coleção que personifique a personalidade de cada brasileiro". Muitos brasileiros, de fato, aprovaram a roupa com o design moderno. Um dos expoentes do design da moda nacional neste século, o estilista e designer Pedro Andrade, de 32 anos, gostou da opção por uma roupa jovem e "transgressora".
"Falando do padrão estético, ela traz um ar fresco que a seleção precisava. Sempre vi a camisa com um design muito quadrado. Esse é um bom exemplo de que é possível sair do padrão desenhando uma camisa", opina Andrade, diretor criativo da loja Guadalupe e que já fez colaborações com marcas como Nike, NBA, Adidas, Asics, New Balance, Fila e Cariuma.
Na sua visão, a nova camisa do Brasil remete aos arrojados uniformes das seleções dos anos 80 e 90. "O esquema de sair do pantone oficial, dos tons de azul, verde e amarelo, quebrando o tradicional, foi outro ponto importante. É sutil, mas mostra um movimento jovem para a camisa", destaca.
Paranhos corrobora o ponto de vista de Andrade. "A Nike ousou um pouco mais, mas respeitando a moda. Hoje, a moda é muito plural. Está muito desprendida", avalia o profissional, que tem experiência em trajes esportivos. Foi ele que criou as roupas que usaram os lutadores no The Ultimate Fighter Brasil, reality exibido pela Globo em 2015.
ONÇA-PINTADA CONTROVERSA
A homenagem à onça-pintada foi o que mais chamou atenção e provocou controvérsias. As pintas do animal estão espalhadas por todo o primeiro uniforme, que apresenta o Amarelo Dinâmico. A segunda camisa, de cor Azul Paramount, é mais "selvagem", visto que as rosetas da onça são destacadas nas mangas. A roupa cria uma combinação que faz referência às três cores da bandeira nacional brasileira - o amarelo, o verde e o azul
A estampa animal surgiu na moda em 1947, quando Christian Dior encontrou uma alternativa para deixar de utilizar a pele animal. "Mas, ainda assim, é perigoso usar a estampa da onça-pintada por ser um animal ameaçado de extinção. Existe uma linha tênue nisso", alerta Raíssa Zogbi, jornalista pós-graduada em Estética e Gestão da Moda pela USP. Ela entende que a escolha da Nike pode gerar ambiguidade. "Compreendo que a intenção tenha sido traduzir a garra e a força do animal, mas pode soar de uma forma negativa".
Fause Haten, de 53 anos, conhecido estilista e figurinista de teatro, desaprovou o novo traje da seleção em virtude da ausência de uma história aprofundada no texto de lançamento do traje. "Acho muito simplista o uso de uma estampa de animal, nos dias de hoje, sem uma reflexão mais profunda", opina.
"Na pré-história os homens se cobriam com as peles de animais pra adquirir a sua força nas lutas e caçadas. Acho que não é disso que precisamos nem como mundo e nem como país nesse momento. Precisamos de esportistas que buscam a vitória, mas consideram a derrota, de um país que considera o adversário um colega de jogo", reflete.
Há, porém, os que não veem polêmica no uniforme que homenageia o felino de grande porte, um dos mais importantes da fauna brasileira. "Se a gente quer fazer um estudo estético trazendo referências brasileiras, por que não trazer um animal que está em perigo de extinção?", questiona o designer Pedro Andrade. "Acho muito bom quando corporações e marcas olham para a nossa riqueza natural. Só vejo aspectos positivos".
Os uniformes, diz a Nike, são feitos de poliéster reciclado de garrafas plásticas recicladas, o que reduz as emissões de carbono em até 30%, em comparação com o poliéster virgem, e ajuda a desviar anualmente uma média de 1 bilhão de garrafas plásticas dos aterros sanitários e cursos d'água. A fornecedora de material esportivo da CBF usou protótipos digitais para reduzir a geração de resíduos. O número de amostras criadas para fins de prototipagem foi reduzido em cerca de 75%, em comparação com os processos de 2018.
(Com Agência Estado)
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.







