O recuo da percepção de risco geopolítico após a assinatura de memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, apesar de troca de farpas entre as partes ao longo do dia, tirou força dos preços do petróleo, que se mantiveram abaixo da linha de US$ 80 o barril. Como parte da apreciação recente do real foi atribuída à perspectiva de melhora dos termos de troca com a arrancada da commodity, investidores podem estar desmontando parte do "trade do petróleo" para embolsar lucros.
Em alta firme desde a abertura dos negócios e com máxima de R$ 5,1902, registrada no início da tarde, o dólar à vista encerrou o dia com ganhos de 1,32%, a R$ 5,1752. A moeda americana acumula valorização de 2,25% na semana e de 2,62% em junho, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar 10% no início de maio, agora são de 5,72%.
Para o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, o principal gatilho para a depreciação do real foi o tom duro adotado pelo Fed na quarta. Ele destaca o compromisso explícito do novo presidente da instituição, Kevin Warsh, com a estabilidade de preços, afastando desconfianças sobre eventual interferência política na condução da política monetária.
"Warsh mostrou independência, apesar de ter sido indicado por Trump. O Fed se mostrou mais conservador do que a maioria do mercado esperava, com a maioria dos dirigentes passando a prever alta de juros neste ano", afirma Galhardo, acrescentando que o conteúdo do comunicado do Copom, que classificou de "confuso", pode ter contribuído para acentuar a depreciação do real.
Como esperado pela maioria dos economistas ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o Copom cortou a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,25%, embora as projeções para a inflação no quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, tenham subido, de 3,5% para 3,7%. O comitê ponderou, contudo, que a atual trajetória da taxa de juros é compatível com o cumprimento da meta de inflação quando se considera o primeiro trimestre de 2028, que passa a ser o horizonte relevante a partir do próximo encontro do colegiado, em agosto.
Para a diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, o comunicado do Copom enfraquece a única âncora que o país tem hoje, a monetária. Embora tenha feito um diagnóstico correto ao mencionar a aceleração da atividade, o efeito dos estímulos à demanda agregada e a piora das expectativas de inflação, o comitê "desfez toda a lógica hawkish" que construiu ao trazer um cenário alternativo que leva em conta o primeiro trimestre de 2028.
Na prática, o Copom mostra "desconforto com a desaceleração da atividade que seria necessária para trazer a inflação à meta no horizonte original", embora essa desaceleração seja "justamente o canal pelo qual a política monetária restritiva opera", observa. "Uma coisa é certa: o custo para ancorar as expectativas e trazer a inflação para níveis mais baixos, que já era alto sem âncora fiscal, ficou mais alto ainda com essa comunicação de ontem quarta", afirma Srour, em nota.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia mais de 0,70% no fim da tarde, ao 10,800 pontos, após máxima aos 100,918 pontos - nos maiores níveis desde maio de 2025. A libra perdeu mais de 0,66% após a decisão do Banco da Inglaterra (BoE) de manter a taxa básica de juros em 3,75% pela quarta vez consecutiva. O Dollar Index avança cerca de 1% na semana e quase 2% em junho.
O diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, afirma que o risco global caiu com a reabertura do Estreito de Ormuz, mas a reação negativa do mercado à postura mais dura do Fed ditou o tom do mercado de moedas. "O mais relevante será acompanhar a dinâmica do DXY, que ameaça reverter a tendência de baixa de longo prazo. No Brasil, o Copom mais dovish prejudica o real, e as commodities estão corrigindo a forte alta", afirma Faria Junior, ressaltando que a bolsa mostra sinais de fraqueza, o que pode contribuir para tirar fôlego do real.
(Com Agência Estado)
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