Sábado, 14 de Março de 2026
facebook001.png instagram001.png twitter001.png youtube001.png whatsapp001.png
dolar R$ 5,36
euro R$ 6,23
libra R$ 6,23

00:00:00

image
facebook001.png instagram001.png twitter001.png youtube001.png whatsapp001.png

00:00:00

image
dolar R$ 5,36
euro R$ 6,23
libra R$ 6,23

Cuiabanália Sábado, 14 de Março de 2026, 11:27 - A | A

facebook instagram twitter youtube whatsapp

Sábado, 14 de Março de 2026, 11h:27 - A | A

DESENHOS QUE FALAM

Exposição revela percepções infantis sobre violência doméstica em Cuiabá

Mostra reúne ilustrações de estudantes que retratam o impacto da violência contra a mulher nas famílias e provoca reflexão no Fórum da capital

DA REDAÇÃO

“Eu tinha cinco anos. A casa da minha avó, em Juiz de Fora, Minas Gerais, era um sobrado. A tia que eu mais amava, irmã do meu pai, era muito loira, de olhos azuis, pois nossa família é descendente de alemães. Eu vi o marido dela, meu tio, bater nela e empurrá-la escada abaixo. Era uma escada linda, de mármore, com dois lances. Eu assisti quando ele a empurrou e ela rolou até lá embaixo. Quando ela conseguiu se levantar, não eram apenas os olhos dela que estavam azuis. O corpo inteiro estava azul, machucado. Tenho hoje 74 anos, quase 75, e nunca esqueci aquele momento. Eu não queria mais ir à casa da minha avó, porque não queria lembrar que a tia que eu mais amava tinha sido vítima daquela agressão. Se eu tivesse sido chamada para desenhar naquela época, provavelmente faria um desenho semelhante a um que vi nesta exposição: o de uma criança que mostra uma faixa escondendo feridas e escoriações de uma vítima. A criança às vezes não consegue falar, mas fala por meio do desenho”.

O relato emocionado da desembargadora Maria Erotides Kneip marcou a abertura da exposição “Desenhos que Falam: percepções sobre a violência doméstica”, que ficará em exibição no Fórum de Cuiabá de 9 a 31 de março. A mostra reúne ilustrações produzidas por estudantes do 5º ao 9º ano da rede estadual de ensino e integra as ações realizadas durante o mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.

Organizada pela Defensoria Pública de Mato Grosso (DPEMT), por meio do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem), a exposição chega ao Fórum da Capital numa parceria com o Poder Judiciário de Mato Grosso. O objetivo é provocar reflexão sobre a violência contra as mulheres e reforçar a importância de discutir o tema dentro e fora das escolas.

Segundo a desembargadora Maria Erotides, coordenadora da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), os desenhos revelam sentimentos que muitas vezes as crianças não conseguem expressar em palavras. “As crianças são capazes de reproduzir os seus sentimentos nos desenhos. Elas falam através deles. Principalmente aquelas que vivenciam a violência contra as mães, contra as tias ou contra pessoas que elas amam”, afirmou.

Ela destacou que muitas das ilustrações mostram experiências vividas de perto pelos estudantes. “Quando as pessoas veem os desenhos, elas se impressionam. Pensam: ‘Meu Deus, essa violência é capaz de provocar uma dor tão grande a ponto de a criança expressar isso dessa forma?’.”

Educação como ferramenta de prevenção

A exposição nasceu a partir de visitas realizadas por defensoras públicas em escolas estaduais de Cuiabá durante atividades da campanha Agosto Lilás, voltada ao enfrentamento da violência doméstica.

Durante palestras e rodas de conversa com estudantes, os alunos foram convidados a expressar, por meio de desenhos, como percebem a violência contra a mulher. O resultado foi um conjunto de imagens fortes, que retratam agressões físicas, sofrimento emocional e o impacto da violência dentro das famílias.

Para a defensora pública-geral do Estado, Luziane Castro, o material produzido pelos estudantes mostra como a violência doméstica afeta não apenas as mulheres, mas também crianças e adolescentes. “Essa exposição nasceu de um projeto que realizamos nas escolas públicas. Durante as visitas, os alunos produziram desenhos que mostram como percebem a violência contra a mulher. A partir deles, conseguimos entender o quanto essa violência atinge toda a família”, afirmou.

Segundo ela, o impacto das imagens ajuda a despertar a consciência da sociedade. “Queremos que as pessoas se choquem, que se indignem. A indignação é o primeiro passo para que possamos mudar essa realidade”.

Desenhos que pedem socorro

A juíza diretora do Foro da Comarca de Cuiabá, Hanae Yamamura, explicou que a exposição foi trazida para o Fórum após indicação da juíza Ana Graziela Vaz de Campos, titular da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.

De acordo com a magistrada, o espaço foi escolhido justamente pela grande circulação de pessoas. “O Fórum de Cuiabá é a maior casa do Poder Judiciário no estado. Aqui trabalham cerca de 1.500 servidores e circulam aproximadamente oito mil pessoas por mês. É um local importante para sensibilizar a sociedade”, destacou.

Para a juíza, os desenhos representam um alerta sobre o impacto da violência no ambiente familiar. “Esses desenhos estão gritando. Eles mostram que a violência não atinge apenas a mulher, mas também toda a família, principalmente as crianças”.

O desafio de enfrentar a violência

Durante a abertura da exposição, a juíza Ana Graziela Vaz de Campos lembrou que Mato Grosso registra números preocupantes relacionados à violência contra a mulher.

Segundo ela, o estado ocupou o primeiro lugar no ranking nacional de feminicídios em 2023 e 2024, e ficou em terceiro lugar em 2025.

Diante desse cenário, a magistrada reforçou que iniciativas nas escolas são fundamentais para mudar essa realidade. “Quando levamos esse debate para os bancos escolares, estamos desenvolvendo uma política pública de prevenção antes mesmo que o crime aconteça”.

Para as instituições envolvidas, “ouvir” o que as crianças expressam nos desenhos é um passo importante para quebrar ciclos de violência e construir uma sociedade mais consciente.

“Quando passarmos por este corredor, precisamos ouvir o que essas crianças estão dizendo nos desenhos”, concluiu a desembargadora Maria Erotides. “Elas estão pedindo socorro. E nós precisamos agir para que esse grito não seja ignorado”.

Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.

Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.

Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM  e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.

Comente esta notícia

Algo errado nesta matéria ?

Use este espaço apenas para a comunicação de erros