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Cidades Sábado, 17 de Outubro de 2026, 12:00 - A | A

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HNT ENTREVISTA

"Foi difícil desligar a imagem do paizinho ideal do predador", diz escritora vítima de abuso

Janete Carvalho relata no livro ‘Entre o Medo e a Palavra’ os sete anos de violência sofridos na infância e adolescência; cerca de cinco décadas depois, terapia e literatura se tornaram caminhos para elaborar o trauma

CAMILA RIBEIRO
DA REDAÇÃO

ASSISTA AO HNT ENTREVISTA COM JANETE CARVALHO

A professora aposentada e escritora, Janete Carvalho, de 65 anos, levou cerca de cinco décadas para começar a elaborar as marcas dos abusos sexuais que sofreu dos 8 aos 15 anos, praticados pelo próprio pai. A história, mantida em silêncio por tantos anos, ilustram as páginas do livro 'Entre o Medo e a Palavra', sua primeira obra, que retrata o processo de enfrentamento do trauma e a busca por ressignificar a própria história.

Janete falou sobre a dificuldade de compreender a violência dentro de uma relação que deveria ser marcada por amor e proteção. Segundo ela, desde a infância havia a percepção de que algo estava errado, mas a imagem de pai amoroso tornava mais difícil reconhecer e nomear o que acontecia.

 

Por volta dos 8 anos, percebi que alguma coisa estava errada

"Acho que a criança percebe. Eu percebi, por volta dos meus 8 anos, que alguma coisa estava errada", relatou.

A escritora explicou que o vínculo afetivo com o pai provocava uma confusão difícil de superar. Na família, ela era considerada a "filhinha do papai", protegida por um homem que, publicamente, mantinha uma imagem de afeto e respeito.

"Meu pai era amoroso, era o meu paizinho. Começo o prólogo do meu livro com um lamento: 'Onde está o meu paizinho?'. O mais difícil foi separar a imagem do pai ideal daquela do pai predador", contou.

 

Daniel Souza/TV HNT

Janete Carvalho

A professora aposentada e escritora, Janete Carvalho, no HNT Entrevista.

Janete afirmou que só recentemente, durante as terapias, conseguiu utilizar palavras para descrever a violência sofrida. Antes disso, conviveu com vergonha e dificuldade para encarar as próprias lembranças.

A primeira tentativa de Janete de buscar ajuda por meio da psicanálise ocorreu aos 29 anos. Na época, porém, ela ainda não se sentia preparada para enfrentar as memórias e interrompeu o acompanhamento.

É um processo de cura

Em 2007, já morando em Cuiabá, tentou novamente, mas permaneceu em terapia por cerca de oito meses. O processo que considera mais consistente começou há cinco anos, quando decidiu continuar o tratamento mesmo diante das dificuldades.

"Há cinco anos, comecei para valer. Dessa vez, não fugi e não vou fugir mais. É um processo de cura", afirmou.

A pedagoga também destacou a importância da literatura ao longo da vida. Leitora desde a infância, ela contou que costumava escrever para tentar aliviar o sofrimento, mas chegou a queimar textos produzidos em momentos difíceis.

O incentivo do psicanalista para que voltasse a escrever contribuiu para o nascimento do livro. A obra passou a funcionar como uma extensão das reflexões feitas durante a terapia, permitindo que Janete organizasse pensamentos e sentimentos que por muito tempo permaneceram silenciados.

"Digo que o livro é uma ode à palavra, uma palavra que está me libertando. Não digo que estou completamente curada, mas estou muito mais forte, inclusive para aceitar meu próprio sofrimento e ressignificá-lo", declarou.

Daniel Souza/TV HNT

 Janete Carvalho

A professora aposentada e escritora, Janete Carvalho, no HNT Entrevista.

QUEBRANDO O SILÊNCIO

Ao falar sobre a relação com a arte, Janete afirmou que a literatura teve papel importante para que conseguisse seguir em frente, mesmo antes de iniciar o processo terapêutico.

Costumo dizer que a literatura me manteve em pé

Para ela, a arte pode oferecer acolhimento e ajudar pessoas a atravessar períodos de sofrimento. No caso de sua trajetória, a escrita tornou-se uma forma de transformar experiências dolorosas em reflexão e expressão.

A escritora também reconheceu que o acesso à psicanálise e a possibilidade de permanecer em acompanhamento foram importantes para o processo de enfrentamento do trauma. Embora não considere a própria recuperação concluída, afirma que hoje consegue olhar para sua história com mais força e compreensão.

"Costumo dizer que a literatura me manteve em pé", falou a escritora,

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