O juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª Vara Criminal de Presidente Venceslau, recebeu nesta quinta-feira, 18, a denúncia contra a influenciadora Deolane Bezerra, o líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, além de outros três parentes de Marcola e do apontado operador financeiro do grupo investigado na Operação Vérnix. Todos passam a responder pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Deolane está presa na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, a 600 km da capital, desde 21 de maio. Já Marcola cumpre pena desde 1999 e atualmente está custodiado na Penitenciária Federal de Brasília.
A defesa de Marcola, de seu irmão, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, e dos sobrinhos Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho afirmou que "adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória".
A defesa de Deolane, conduzida pelo criminalista e professor Aury Lopes Jr, afirmou que a influenciadora "é inocente, seus rendimentos possuem origem lícita" e que ela "não possui qualquer vínculo com o crime organizado".
O juiz destacou na decisão trechos da investigação conduzida pela Delegacia Seccional de Presidente Venceslau e da denúncia apresentada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, para sustentar os indícios de participação de Deolane Bezerra no esquema.
O magistrado anotou que Deolane "atuava como receptora de valores ilícitos provenientes da Transportadora Lado a Lado, operada em benefício do PCC. Sua conta no banco foi utilizada para o recebimento de depósitos fracionados oriundos diretamente da empresa de fachada, a mando de Everton ("Player"/"Temer"), agente financeiro de Alejandro".
Segundo a decisão, a análise dos relatórios do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) apontou movimentações de R$ 27.002.774,72 "incompatíveis com a capacidade econômica declarada".
No despacho de 17 páginas que acolheu a denúncia, o juiz ressalta que "os relatórios identificam o emprego reiterado de técnicas de lavagem: uso de empresas interpostas, fragmentação e pulverização de depósitos, integração de laranjas e inconsistências declaratórias de imposto de renda".
"Os áudios enviados a uma diarista indicam que Deolane mantinha valores pertencentes ao PCC em seus imóveis e nos imóveis de seus filhos. Além disso, a investigação apurou plano de reestruturação de empresas com transferência para fundos em Dubai, país reconhecidamente associado à utilização de shell companies para facilitação de lavagem internacional de ativos", destaca a decisão.
Justiça cita apreensão de carros de luxo
A Justiça também cita a apreensão de veículos de luxo de Deolane, entre eles uma Mercedes-Benz AMG G63 4M e uma Cadillac Escalade, ambas modelo 2024/2025. Segundo a decisão, os bens indicam um padrão patrimonial incompatível com os rendimentos lícitos declarados pela influenciadora.
A investigação identificou outros veículos vinculados a Deolane ou a empresas ligadas a ela, como uma BMW X1 S20i M Sport e uma Lamborghini Huracan EVO. Esta última está registrada em nome da Deolane Bezerra Holding Patrimonial Ltda., circunstância que, segundo a autoridade policial, "reforça a suspeita de uso de estruturas empresariais para ocultar a real titularidade dos ativos".
Em relação à Lamborghini da influenciadora, a decisão aponta sucessivas transferências de propriedade entre pessoas jurídicas. Antes de ser registrada em nome da holding de Deolane, o veículo teria pertencido à Ryan SP Holding Patrimonial Ltda., empresa ligada ao cantor MC Ryan SP, que também é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro na Operação Narco Fluxo.
Provas indicam que Marcola se beneficiava de repasses
Apontado como líder máximo da maior facção do País, Marcola é, segundo a investigação, "proprietário oculto da Transportadora Lado a Lado, conjuntamente com seu irmão Alejandro".
"As provas indicam que Marco Willians era o beneficiário final de parcela dos repasses financeiros operacionalizados pela transportadora, com depósitos documentados em seu favor. Os manuscritos apreendidos na Penitenciária II de Presidente Venceslau o apontam como a liderança que transmitia ordens para o grupo", diz a decisão.
Operação Vérnix foi realizada em maio
No dia 21 de maio, uma força-tarefa da Delegacia-Geral de Polícia e da Procuradoria-Geral de Justiça prendeu Deolane no requintado condomínio Tamboré, em Alphaville, na Grande São Paulo.
Um dia após regressar de uma viagem a Roma, na Itália, Deolane foi surpreendida por policiais, que a acusam de manter um "padrão reiterado de ostentação de bens de alto valor econômico, incompatível, em tese, com a capacidade financeira formalmente declarada", o que, segundo a investigação, "se mostra relevante sob a ótica da persecução penal voltada aos crimes de lavagem de capitais e ocultação de patrimônio".
Deolane, de 38 anos, recusou-se no dia 27 de maio a depor à Polícia Civil. Durante toda a audiência, na Penitenciária de Tupi Paulista, a mais de 600 quilômetros da capital, ela permaneceu calada, seguindo orientação de sua irmã, a advogada Daniele Bezerra, segundo a Polícia.
A estratégia de Deolane desapontou e surpreendeu os policiais porque ela própria havia protestado para ser ouvida no inquérito. Um dia antes, sua irmã postou nas redes um desabafo que a influenciadora fez por meio de uma carta de próprio punho. "Peço para ser ouvida, assim como foi pedido no momento da prisão. Nunca fui bandida."
A Polícia queria que Deolane explicasse a movimentação de R$ 40 milhões em suas contas - a suspeita é que o dinheiro saiu do caixa de uma transportadora de fachada de Presidente Venceslau, usada pela facção para ocultar ativos do crime organizado, especialmente do tráfico de drogas, uma das fontes de receita de Marcola e seus aliados, de acordo com a Polícia e o Ministério Público.
O que diz a defesa de Deolane Bezerra
"A defesa de Deolane Bezerra, patrocinada pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha de Vilhena, Luiz Ricardo Rodrigues Imparato e Rogério Nunes, tomou ciência do recebimento da denúncia oferecida pelo Ministério Público, ato processual inicial que não representa qualquer conclusão acerca dos fatos imputados.
A defesa afirma que utilizará todos os meios de prova necessários ao esclarecimento do caso, afastando qualquer alegação de ilicitude ou conduta criminosa, uma vez que sua cliente é inocente, seus rendimentos possuem origem lícita e regularmente declarada e Deolane não possui qualquer vínculo com o crime organizado."
O que diz a defesa de Marcola e familiares
"Bruno Ferullo, advogado de Marco Willians Herbas Camacho, Paloma Sanches Herbas Camacho, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, vem a público informar que a denúncia oferecida em desfavor de seus constituintes no contexto da denominada Operação Vérnix, na qual se imputou a suposta prática dos delitos previstos no artigo 2.º da Lei n.º 12.850/2013 (organização criminosa) e no artigo 1.º da Lei n.º 9.613/1998 (lavagem de capitais), foi recebida pelo Juízo da 3ª Vara da Comarca de Presidente Venceslau no dia 16 de junho.
A Defesa reitera que Marco Willians Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior encontram-se custodiados em estabelecimento penal federal de segurança máxima desde fevereiro de 2019, submetidos a severas restrições de contato e comunicação, o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados e evidencia o equívoco da acusação.
Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho também refutam integralmente as imputações formuladas. A Defesa destaca que o mero vínculo familiar com os demais denunciados não pode ser confundido com participação criminosa, sendo inaceitável que a simples proximidade afetiva sirva de fundamento para uma acusação desta magnitude.
Quanto aos elementos de natureza patrimonial e financeira mencionados na denúncia, a Defesa esclarece que eles serão devidamente contextualizados no decorrer da instrução processual, oportunidade em que serão apresentados os esclarecimentos e as provas pertinentes acerca da origem e da regularidade das operações apontadas pela acusação.
A Defesa, diante da acusação apresentada, adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória e a improcedência das imputações atribuídas aos seus constituintes, confiando que, ao final da regular instrução processual, a verdade dos fatos será devidamente reconhecida pelo Poder Judiciário."
(Com Agência Estado)
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