Mato Grosso é apresentado diariamente como um exemplo de equilíbrio fiscal, crescimento econômico e capacidade de investimento. O governo comemora recordes de arrecadação, inaugura obras e destaca a solidez das contas públicas. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: de que adianta um Estado rico quando seus servidores públicos estão cada vez mais pobres?
A realidade vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras do serviço público, especialmente da educação, está muito distante da propaganda oficial. Enquanto os cofres estaduais registram crescimento de arrecadação, mais de 60 mil servidores ativos e aposentados recorrem aos empréstimos consignados para pagar alimentação, medicamentos, aluguel e despesas básicas da família. Nessa trágica estatística, 80% (35 mil) dos 42 mil aposentados e pensionistas, segundo o MTPrev, estão endividados no estado.
Na educação, a situação é ainda mais preocupante. Professores e profissionais das escolas enfrentam uma combinação perigosa: sem prestígio e desvalorização, com aumento das responsabilidades e redução de 32,57% do poder de compra. O que antes garantia uma vida digna hoje mal consegue acompanhar o preço dos alimentos, da energia elétrica, dos combustíveis e dos serviços essenciais.
A gestão Mauro Mendes e Pivetta deixou os salários dos educadores R$ 1.260,49 abaixo do piso salarial nacional (R$ 5.130, 63), e acabou com Concurso Público, precarizando a carreira. Apesar de Mato Grosso viver um dos períodos de maior arrecadação de sua história, conforme propaganda oficial. Mas é justamente por isso que cresce a indignação dos educadores. Se o Estado arrecada mais, por que os trabalhadores não sentem essa melhora no bolso? Se as contas públicas estão equilibradas, por que tantos servidores estão mergulhados em dívidas?
A verdade é que se construiu um modelo de gestão que privilegia os indicadores fiscais, mas que tem dificuldade em reconhecer o papel estratégico do servidor público. Não existe educação de qualidade sem valorização dos educadores. Não existe saúde eficiente sem profissionais respeitados. Não existe serviço público forte quando seus trabalhadores perdem ano após ano a capacidade de sustentar suas famílias.
Os servidores do Executivo estadual acumulam perdas de 18,38% nos salários pelo não cumprimento da integralidade da RGA ao longo dos últimos sete anos. Quando o salário deixa de acompanhar o custo real de vida, ocorre um empobrecimento silencioso. O trabalhador continua recebendo, mas compra menos, impactando a economia regional, vive com mais dificuldades e depende cada vez mais do crédito para sobreviver.
Essa não é apenas uma discussão econômica. É uma discussão sobre prioridades. O governo escolhe diariamente onde investir recursos, concede R$ 14 bilhões de renúncias fiscais, investe em infraestrutura megalomaníaca, como por exemplo a construção de um Parque de bilhões. Enquanto os servidores são tratados com o que sobra dentro do orçamento e planilhas, perde-se a dimensão humana da administração pública.
Como professor, conheço a realidade das escolas. Conheço profissionais que acumulam jornadas exaustivas, enfrentam dificuldades financeiras e continuam acreditando na educação como instrumento de transformação social. Na educação, são 86% de mulheres que sustentam o futuro de Mato Grosso e que merecem muito mais do que discursos de reconhecimento e benevolência de um governo nada humano.
Defendo que o Estado estabeleça uma política permanente de recuperação do poder de compra dos servidores, dialogue com as categorias e enfrente o problema do superendividamento com responsabilidade. Não podemos aceitar que o crescimento econômico beneficie apenas indicadores e estatísticas enquanto os trabalhadores que constroem esse desenvolvimento ficam para trás.
(*) HENRIQUE LOPES é Professor e pré-candidato a deputado estadual.
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