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Artigos Sexta-feira, 25 de Setembro de 2026, 09:56 - A | A

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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2026, 09h:56 - A | A

CARLOS ALBERTO

Ferida que insiste: Câncer de pele nem sempre começa por uma pinta

CARLOS ALBERTO

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O câncer de pele é o tumor mais frequente entre os brasileiros: 220.490 novos casos estimados por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer, cerca de 31% de todos os diagnósticos de câncer no país. E, ainda assim, vejo a mesma cena toda semana. O paciente chega preocupado com uma pinta nas costas, que está ali há vinte anos e não mudou nada. Enquanto ele me mostra a pinta, eu estou olhando para uma casquinha no nariz dele, que ele nem pensou em mencionar porque não dói.

Essa lesão é o sinal mais comum de câncer de pele, e quase ninguém sabe. É a feridinha que não cicatriza, que às vezes forma uma casquinha, sempre no mesmo lugar, sempre voltando. Pode vir com coceira, descamação e sangramento ao mínimo trauma, como a toalha no rosto. Mas, no começo, costuma ser assintomática, e por isso passa despercebida por meses. Quando os sintomas ficam mais evidentes, em geral o tumor já está mais evoluído.

Parte da confusão tem uma origem bem-intencionada. A regra do ABCDE, ou seja, assimetria, bordas irregulares, mais de duas cores, diâmetro acima de 6 milímetros e evolução, foi uma das campanhas de saúde mais eficazes que já tivemos. O problema é que ela se aplica ao melanoma, um dos tipos mais agressivos e o que costuma surgir a partir de pintas. O carcinoma basocelular e o espinocelular, os mais comuns, obedecem a outra lógica: a da lesão que persiste. Ensinamos o país a vigiar pintas e deixamos de fora o sinal mais frequente.

Se eu pudesse fixar uma frase na cabeça das pessoas, seria esta: não existe ferida que não cicatriza. Toda ferida que não cicatriza precisa ser pensada como câncer de pele até que se prove o contrário. Isso não quer dizer que toda casquinha seja um tumor. Quer dizer que insistência é informação.

Vale também corrigir uma ideia incompleta sobre risco. Pele, olhos e cabelos claros aumentam a predisposição, mas não são tudo. Entre 7% e 15% dos casos de melanoma ocorrem em pacientes com parentes que tiveram a doença, o que mostra que o risco não depende só da exposição solar. As queimaduras da infância, principalmente as intermitentes e intensas, também pesam. O dano é cumulativo, e o sol tomado aos dez anos altera o DNA ao longo das exposições seguintes. Há ainda um grupo que raramente se reconhece como de risco, que é quem trabalha sob o sol todos os dias. Agricultores, pedreiros e entregadores lidam com uma exposição contínua que quase nunca é tratada como questão de saúde.

A diferença que o tempo faz é concreta. Com diagnóstico precoce, a lesão é menor e permite remoção completa sem sacrificar tanta pele saudável ao redor. Quando o paciente demora, o tumor cresce, a cirurgia fica mais extensa e, no melanoma, aumenta o risco de metástase. É a mesma doença com dois desfechos, separados por alguns meses de espera.

A prevenção continua simples e desinteressante, o que talvez explique por que vende tão mal. A proteção física com chapéu, roupas com proteção UV e protetor solar segue à frente de qualquer novidade, inclusive dos fotoprotetores orais. E o autoexame não exige nada além de um espelho: procurar uma pinta diferente ou uma ferida que não fecha, pedir ajuda para conferir costas e pernas, fotografar as pintas para comparar com o tempo. Uma consulta dermatológica por ano completa o cuidado.

O corpo costuma avisar antes. Só que avisa baixinho, sem dor, no canto do nariz ou na orelha, com algo tão banal que se culpa o barbeador. Se uma ferida insiste, ela está dizendo alguma coisa. Vale escutar.

(*) CARLOS ALBERTO BRUNO é dermatologista especializado em cirurgia micrográfica de Mohs.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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