Segunda-Feira, 17 de Fevereiro de 2020, 16h:06

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Como pai e filha assumiram juntos a identidade de gênero

Leonardo e Kylie estão passando, juntos, pela transição de gênero, que começou há um ano. Foi Kylie, inclusive, que ajudou o pai a dar início a seu processo

Por: UOL

Leonardo, de 35 anos, e Kylie Medeiros, 16, são pai e filha. Ele, natural de Bagé, no Rio Grande do Sul, tem uma estamparia em Florianópolis, no Norte da Ilha, onde vive há um ano com a adolescente. Ela tenta concluir o ensino fundamental e pensa em ser cantora.

Reprodução

Leonardo e Kylie estão passando, juntos, pela transição de gênero, que começou há um ano. Foi Kylie, inclusive, que ajudou o pai a dar início a seu processo. Juntos também eles dividem aqui o relato de suas vidas.

A história de Leo

"Cresci numa casa cheia de mulheres, com minha mãe, avó, irmã, tia e primas. Aos 4 anos, já me identificava como menino. Apesar de não acreditar em brinquedo para menino e menina, na década de 1980 isso era bem mais dividido — e eu gostava apenas das coisas ditas masculinas, como bola de futebol.

A família falava para eu me comportar como menina e reclamava do meu jeito largado. Mas minha mãe sempre me deu liberdade para fazer o que quisesse, incluindo escolher a roupa que eu usaria. Acho que usei vestido duas vezes na vida.

Já sabia desde criança quem era o Leonardo. Aos 14 anos, estava numa festa quando vieram me entrevistar sobre o evento. Ao perguntarem meu nome, me identifiquei como Leo. Foi espontâneo. E ninguém questionou. A partir daí, comecei a me perguntar quando iria encontrar alguém que fosse igual a mim.

Bullying e estupro

Na escola e na rua me chamavam de Buba, que era o nome de uma personagem intersexo numa novela ["Renascer", 1993], ou ainda de 'machorra' e todos os apelidos pejorativos que você possa imaginar.

Aos 6 anos, fui proibido de levar de levar bolinha de gude e brincar com os meninos pelo diretor da escola onde eu estudava. E não havia diálogo sobre isso. Eu me enxergava como menino, mas não sabia o que estava acontecendo.

Gostava de uma menina na escola e percebia que as pessoas me repeliam, inclusive ela. Comecei a me isolar. No ensino médio, aos 15, fui treinar futebol e descobri o universo LGBTQ+: todo time de futebol era de lésbica, e namorei uma menina da equipe.

Não conheci meu pai e, quando tinha 16, minha mãe se relacionou com uma pessoa. Ele era religioso e a levou para a igreja. Sofri agressão dele, por causa da minha orientação sexual, e fui morar com parentes. Mas não deu certo.

Para tentar me acertar com minha mãe, entrei para a igreja também. Mas a relação continuou complicada e o namorado dela me expulsou de casa. Minha mãe alugou uma quitinete pra mim, mas acabei me envolvendo com pessoas na rua.

Em maio de 2002, sofri estupro do pai da minha filha, que era bandido, e escondi de todo mundo. Eu o conheci em festas na rua. Depois que ele me violentou, ameaçou minha família caso eu fosse à polícia.

Conflitos com a sexualidade e depressão

Engravidei e não falei com ninguém. Cheguei a amarrar a barriga para disfarçar. Ofereceram remédio para eu abortar, mas não quis. Tinha apenas 18 anos e passei por isso tudo sozinho, calado. Minha família descobriu um mês antes do nascimento dela. Eu a tive no dia do meu aniversário, 12 de março.

Depois do nascimento, a família toda me acolheu e passou a me ajudar. O agressor sumiu. A Kylie quis conhecer o pai quando fez 8 anos. Eu engoli todas as minhas dores e permiti esse encontro.

Quando a Kylie nasceu, comecei a ter conflitos com a minha sexualidade. Repetia para mim mesmo que estava errado e que não podia fazer minha filha sofrer. Coloquei na minha cabeça que o certo era ficar com homens.

Tentei gostar de meninos, mas sentia nojo quando ficava com eles.

Em 2010, não aguentei essa pressão e tive depressão profunda. Foi quando decidi que não ia mais me importar com preconceito.

Filha é menina desde sempre

A Kylie começou a falar sobre transexualidade aos 11 anos. Foi quando comecei a pesquisar sobre o tema.

Quando ela quis colocar saia e vestido, tive medo que sofresse preconceito e fosse agredida na rua, então eu e minha mãe falávamos para ela só fazer isso dentro de casa. Hoje vejo que fomos preconceituosos por termos medo de uma sociedade cruel.

Foi em maio de 2018 que uma amiga me perguntou se eu não pensava em transicionar. Depois disso, procurei uma terapia em grupo trans e me senti a pessoa mais feliz do mundo. Ali, foi meu nascimento. Cheguei em casa e falei para minha filha que tinha achado uma saída. Hoje tomo hormônios.

Tivemos conflitos na época em que eu não queria que ela saísse na rua como mulher. Ela sofreu muito. Mas hoje está tudo bem. Ela está fazendo exames para começar a tomar bloqueador de puberdade.

Todas as minhas dores ficaram para trás, e hoje consigo contar minha história porque entendi que a gente pode tudo o que quiser.

Ser aceito por ela como pai foi a melhor coisa do mundo. Era uma tortura ser tratado no feminino. Hoje me sinto livre, de bem comigo mesmo e preparado para fazer a Kylie voar na vida.

A noiva também é trans

Conheci minha noiva numa feira de empreendedorismo. Pensei: 'Que mulher incrível'. Mas nem imaginei que ela pudesse ser trans.

Nunca tinha ficado com mulher trans, nem ela com homem trans. Não sabíamos como seria o sexo e estava assustado. Não queria ser transfóbico nem queria que ela ficasse mal comigo. Parecíamos dois adolescentes no início do relacionamento.

Se tem uma coisa que perguntam muito é sobre isso: como eu e minha noiva transamos. Acham que a gente sobe no lustre. E é absolutamente natural, como qualquer casal transa.

Ainda não fiz a mastectomia e não pensamos em mudar o órgão sexual. A gente tem um relacionamento muito maduro. E ela me completa.

Posso concluir que hoje a vida está mais leve e sei que a gente pode tudo que o quer

A história de Kylie

"Desde pequena sempre quis ser uma Kardashian. Por isso escolhi ser chamada de Kylie.

O nome significa muito para mim. Meu pai só ri. Às vezes o chamo de pai e às vezes de Leo. Mãe nunca.

Foi no ano passado que consegui realmente colocar a Kylie pra fora. Aos 11, já mostrava muito pro Leo que gostava do universo feminino, mas ele também não entendia muito bem. Uma vez, passou um programa sobre uma adolescente americana trans, a Jazz Jennings, e entendi naquele momento que eu estava no corpo errado.

Nossa família entende, mas não gosta muito disso tudo. Minha avó é evangélica e já a peguei fazendo oração para tirar a 'parte afeminada' de mim.

A gente não teve medo de transicionar, mas sofri bullying a vida inteira e já parei de estudar por causa disso. Já fui agredida e arrancaram a peruca que eu usava. Disseram que eu nunca seria mulher.

Quando cheguei em Florianópolis, no ano passado, numa nova escola, sofri mais preconceito. Eu e o Leo propusemos uma palestra, explicamos a nossa condição, e o clima melhorou um pouco.

Eu e uma amiga fomos convidadas para nos apresentar na festa da primavera, com uma música do Pabllo Vittar. Ganhamos até ponto. Todo mundo aplaudiu.

Mas os deboches continuaram. Começaram a me ameaçar, falando que iam me bater. Tive crise de ansiedade e saí do colégio. Agora estou tentando voltar.

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