Especialistas apontam que o agravamento da crise no Oriente Médio, com a interrupção de uma das principais rotas do petróleo no mundo, pode encarecer combustíveis, pressionar cadeias produtivas e expor fragilidades do Brasil, sobretudo pela dependência de diesel e fertilizantes.
A análise é de especialistas em energia, economia e relações internacionais, que fazem um paralelo com a demanda por medidas excepcionais adotadas durante a pandemia de covid-19. Lembram que o Brasil precisa se antecipar para tornar o País menos dependente de alguns insumos, como o diesel.
Neste domingo, Donald Trump, determinou o bloqueio total do Estreito de Ormuz. Ele afirmou que o Irã está praticando "extorsão" com os líderes mundiais. Segundo o presidente americano, "a maioria dos pontos foi acertada, mas o único que realmente importava, o da energia nuclear, não."
Com o fracasso nas negociações, especialistas antecipam um cenário de agravamento em relação à oferta global de petróleo. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa pelo Estreito. Dados da Bloomberg mostram que, diante do fracasso nas negociações, petroleiros já têm evitado passar pelo estreito.
O efeito do mercado de petróleo foi rápido: o barril abriu neste domingo em alta, acima dos US$ 104. Nesta segunda, às 7h20 (do Brasil), a cotação do óleo tipo Brent estava em US$ 102,20, uma alta de 7,39%.
"O escoamento do petróleo fica mais crítico. E não só o petróleo. Tem o gás natural liquefeito e uma série de insumos petroquímicos que saem da região. Principalmente aqueles ligados a fertilizantes, à mineração, a minerais estratégicos. É uma região muito sensível. Não tenho nenhum otimismo, mas claro que é preciso contar com a imprevisibilidade", diz o ex-diretor geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, David Zylbersztajn.
Ele explica que, além do setor de energia, segmentos como transporte e agricultura serão impactados pelo fechamento de Ormuz, o que deve acentuar a alta da inflação.
"Os preços vão subir no mundo inteiro, porque os combustíveis têm um peso na inflação, e os produtos que são produzidos com eles também. Existem ainda custos de transporte que devem aumentar, assim como os de seguro. Em geral, a produção industrial tende a encarecer", diz Zylbersztajn.
O especialista afirma que, caso a situação se agrave, os líderes deverão reagir ao cenário da mesma forma que ocorreu durante a pandemia de covid-19 - anunciando medidas para aprimorar a logística e reduzir momentaneamente a dependência de importações.
"A situação tende a piorar. E está na hora de começar a pensar em medidas como na época da epidemia da covid. Existe agora a possibilidade de eclodir uma epidemia de quebra do fornecimento e de encarecimento de diversos insumos", disse.
Espaço para aperto monetário como resposta à inflação global é menor
CEO da Arko Internacional e consultor de fundos de investimentos americanos e europeus, Thiago de Aragão opina que ainda não é um momento de exceção como o da pandemia, mas que a arquitetura do choque na economia é parecida.
"A diferença crítica é que na (pandemia de) covid o mundo respondeu com liquidez, juros a zero, estímulo fiscal gigantesco", afirma Aragão, que também é colunista do E-Investidor. "Agora, com a inflação já acima da meta em boa parte do mundo e com juros altos, o espaço para uma resposta monetária é muito menor. Isso faz com que o choque, se ele acabar sendo prolongado, seja potencialmente mais doloroso do ponto de vista de renda real ainda que menos dramático no curto prazo."
Os especialistas são unânimes em citar que um dos principais pontos críticos do Brasil é em relação à dependência de diesel e que é importante encontrar maneiras de reduzir essa necessidade. Para Aragão, o Brasil precisa elaborar uma política de estoques estratégicos de diesel.
"O Brasil importa cerca de 1/4 do diesel que consome e boa parte vem do Golfo Pérsico e da Índia. Então, faz sentido a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia ativarem compras antecipadas via contratos de longo prazo com alguns fornecedores que estão fora da zona de risco, como Argentina, Nigéria, Estados Unidos. Outra medida é começar a usar a capacidade ociosa de refino doméstico que de certa forma existe", analisa.
Preocupação com o fornecimento de fertilizantes
Aragão observa que o Brasil precisa investir em uma "diplomacia comercial" para reforçar opções alternativas que possam desafogar não só o fornecimento de petróleo, mas também de fertilizantes.
"O País tem de reforçar canais com Emirados Árabes e Arábia Saudita. A Arábia Saudita opera o oleoduto leste-oeste que ignora Ormuz, embora hoje esteja com uma capacidade limitada. O Brasil precisa acelerar a pauta de fertilizantes com Marrocos, Rússia, Canadá, porque esse é o elo mais frágil do agro brasileiro", diz ele, acrescentando que o Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que utiliza.
Por outro lado, a crise pode abrir oportunidades para alguns setores. É o caso da produção de etanol.
"O etanol acaba ganhando uma competitividade contra gasolina. E os exportadores em geral (podem se beneficiar), se o câmbio começar a depreciar", afirma.
Caso a negociação entre Irã e Estados Unidos não seja frutífera a curto prazo, Aragão afirma que o impasse pode ter impactos inclusive no cenário eleitoral brasileiro ao agravar os impactos econômicos no País.
"Decisões que em tempo normal levariam meses vão precisar ser tomadas em semanas. E a janela para errar acaba sendo muito menor. Se o estreito de Ormuz reabrir em 30, 45 dias, vai acabar virando no fim do ano uma nota de rodapé. Mas, se passar disso, entramos num regime novo de inflação importada, que vai impactar diretamente até a eleição do Brasil em outubro."
(Com Agência Estado)
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