Cuiabano de “chapa e cruz” e filho de militar, o cantor Roberto Lucialdo aprendeu a cantar e tocar sozinho. Contrariando a vontade do pai, que desejava ter um filho que seguisse a carreira militar ou que “estudasse para alguma coisa”, Roberto passou a tocar na noite, com um violão que ganhou da mãe.
“Sou auto-ditada, mas aprimorei minhas habilidades no SESC na época. Tomei aula com um professor de erudita e fizemos amizade. Até me matriculei [na faculdade] comecei dois cursos, um de pedagogia e outro de administração hospitalar, mas desisti. A música está no sangue”, conta.
A carreira musical começou a deslanchar quando o cantor ganhou um festival em Goiânia (GO), onde recebeu o convite de um dos jurados para fazer parte da banda “Os Liberais”. Essa parceria durou pouco mais de um ano. “Quando voltei para Cuiabá, me apresentei em um espaço cultural e o cara me ofereceu um salário bom para eu continuar”, conta.
Em entrevista ao HiperNotícias, Roberto Lucialdo conta como se tornou uma referência do rasqueado cuiabano e apresenta propostas para manter viva a cultura mato-grossense.
Confira a entrevista completa:
HiperNotícias - Você é referência quando se trata de rasqueado cuiabano. Como o ritmo entrou na sua vida?
Roberto Lucialdo - A 'Banda do Baú' tocava muito rasqueado. Meu tio tocava na banda e me levava para o ensaio. Aquilo foi ficando na minha cabeça. Quando cresci, queria ser músico e já fazia arranjo musical. Fiz uma música homenageando ele [o tio], que se chama Caximbocó. A música também dá nome a um programa de rádio que já existe há seis anos e fez sucesso até na radio novela "Trovão".
Mas a primeira música que lancei foi ‘Cuiabá, Cuiabá’. Naquela época não tocava esse tipo de música em rádio. O que tocava eram outros ritmos, mas eu consegui furar esse bloqueio porque eu toquei na Panaceia, local frequentado por pessoas bem ricas, e explodiu. Aí o cara do espaço perguntou de quem era a música, eu respondi que era minha, e ele falou que iria patrocinar.
Tocava lá até meia-noite. Saía de lá e ia tomar café com Crispim, na Rádio Programa. Ficava lá até começar o programa para eu divulgar a música. Meus amigos falavam “Roberto, para com isso. Ninguém ouve rádio essa hora, é perda de tempo”. Mas todo mundo ouvia.
A música pegou. Agora tem que furar o bloqueio da FM. Fiquei pensando como eu poderia fazer isso. Como eu divulguei a música em Chapada na radio novela Trovão, mandei música romântica para o pessoal da rádio, e cantei e toquei lá. Eles gostaram, e a música começou a tocar. Acharam ela muito boa. "Me ama assim" era o nome da música. Foi a primeira que tocou na rádio.
HN - E o que mudou na sua carreira com isso?
R.L. - A partir de então começaram a me procurar e eu comecei a produzir. João Eloy, Gilmar Fonseca, Scort Som, um monte de gente me procurava. Com tanta demanda, surgiu a necessidade de montar um estúdio, já que as pessoas não tinham muitas condições de pagar o espaço. Os artistas tinham pouco dinheiro.
Fiz o estúdio para fazer o meu trabalho e o espaço cresceu. Já tem mais de 20 anos que tenho esse local. Gravei aqui Cristiano Araújo, Anselmo e Rafael, Toninho de Erasmo, Renato Milagres, Ana Rafaela, Lorena Ly entre muitos outros artistas.
Agora estou terminando meu CD em comemoração ao aniversário de Cuiabá, mas é difícil conseguir patrocínio. Trago no CD a "raiz cuiabana", com 12 músicas novas e quatro bônus que, justamente essas, não podem morrer. São as músicas que as pessoas pedem muito onde vou cantar.
HN - O que representa o rasqueado?
R.L. - O rasqueado para mim é importante porque é a cultura e identidade do povo. São poucos os estados que têm uma cultura própria igual nós temos. Por exemplo, nós temos cururu, siriri, rasqueado. O jeito de tocar é nosso, tem o suingue de bater diferente.
Vai ser difícil eu largar essa bandeira, só quando eu morrer mesmo. Percebo que a gente tem que fazer uma coisa muito forte para divulgar nos colégios. O jeito de falar, mesmo viajando como eu estava e fui para são Paulo não deixei de falar com sotaque. As pessoas perguntam: "mas como?". Isso faz parte de mim e do meu jeito de ser. Eu sou eu mesmo.
HN - Você acha que falta mais valorização da cultura local?
R.L. - Acho que a Secretaria de Cultura deveria convidar mais os artistas regionais para participar dos eventos que são programados. Também geraria emprego para muita gente que hoje está sem trabalhar, mas preferem trazer gente de fora. Isso é um absurdo.
Quem faz rasqueado, hoje em Cuiabá, com responsabilidade, sou eu, Vera e Zuleica, Pescuma, João Eloy, Gilmar Fonseca, Bolinha, Dilson de Oliveira e outros. Somando dá uns 10. Se a gente for fazer um evento em Barra do Bugres com todos no mesmo ônibus e acontecer um acidente, morre todo mundo. Pronto, acabou o rasqueado.
Faltam projetos e meios que incentivem os artistas a querer levar a cultura para frente. Ir aos colégios, porque a pessoa fica de manhã estudando aula de química, geografia, português, matemática, física, biologia, a cabeça fica a mil por hora. Se nesse espaço você tirar um período de 40 minutos para contar histórias do nosso povo e divulgar a música, os alunos voltam até mais leves para a sala de aula.
Fiz isso várias vezes nos bairros CPA e Tijucal. Depois de três meses do projeto ainda sem nome, foi sugerido “Encantação” e pegou. Acabavam os convites e tinham 10 mil pessoas no estádio para curtir o show. Falta voltar esses projetos, festivais que incentivem os jovens. Tem muitas pessoas que tem fazem composições ótimas de rasqueado.
HN - Qual a mensagem que o senhor deixa para a comunidade cuiabana nesse aniversário da Capital?
R.L. - Cuiabá é uma cidade maravilhosa, com povo hospitaleiro, aconchegante, que tem identidade própria no falar, comidas típicas, danças. É um povo que você chegou e bateu palma, ele abre a porta da frente de casa para você entrar. Chupando manga, Bocaiúva, vale a pena nascer aqui, investir, e ser filho dela. Por isso, decidi levar isso adiante.
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