Sábado, 19 de Setembro de 2020, 13h:51

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Prejuízos para o Pantanal ainda são incalculáveis e animais podem sofrer por anos, alerta bióloga

Por: RAYNNA NICOLAS

Até a última segunda-feira (14), os incêndios no Pantanal mato-grossense já tinham devastado 1,6 milhões de hectares do bioma, isto é, o equivalente a cinco vezes o tamanho de Cuiabá. A extensão destruída pelo fogo já é a maior registrada na história, desde que os focos de incêndio no Pantanal começaram a ser monitorados, em 1998.  

Mauro Pimentel/AFP

queimadas pantanal

 

No entanto, a bióloga Scarlet Fauth afirma que ainda é difícil estimar as consequências a longo przo, mas as expectativas é de que as queimadas possam afetar significativamente a fauna e a flora do bioma que é considerado vulnerável e não adaptado à passagem do fogo. 

"Podemos perder em diversidade e riqueza muitas espécies de animais, pois o bioma Pantanal por ser um bioma vulnerável e não adaptado à passagem do fogo. Esses animais que ali habitam, não estão preparados para isso. O calor, a falta de recursos alimentares, a falta de água, a perda de habitats, gera um desequilíbrio muito grande neste bioma, sendo impossibilitado uma vida natural para estes animais", explica Scarlet. 

A situação é ainda mais preocupante, uma vez que o Pantanal é mais vulnerável que o Cerrado, por exemplo, onde a chegada do fogo sob regime sazonal já é esperada. 

"O fogo faz parte de um regime sazonal do bioma Cerrado em toda a região onde se localiza. Este bioma possui o que, dentro da ecologia, entendemos como resiliência, que é a capacidade do bioma se recuperar após a passagem do fogo. No caso do Pantanal, não temos a mesma resiliência do Cerrado, por ser um bioma úmido, cheio de áreas alagaveis, ele é mais vulnerável aos incêndios. Não é habitual que as queimadas ocorram como no cerrado", completa a bióloga. 

Para profissional, ainda que a ausência de dados reais impossibilitem uma conclusão concreta, as informações disponibilizadas por órgãos como o Corpo de Bombeiros de Mato Grosso (CBM-MT) já revelam uma destruíção de proporções dantescas e que, provavelmente, a recuperação do bioma será lenta. 

Com o avanço do desmatamento, comum para transformar as áreas pantaneiras propícias para a produção rural, a perspectiva é de que, talvez, o Pantanal não tenha nem a chance de se recuperar. Isso porque a tendência é de que os períodos de seca se tornem mais severos. 

Mauro Pimentel/AFP

queimadas pantanal

 

"Sem esses dados reais é impossível estimar uma recuperação, porém vendo a quantidade de hectares que já se foram, e com eles toda uma cadeia de vida, o estrago foi grande. Com relação aos próximos anos, teremos períodos de seca cada vez mais severos, devido ao desmatamento florestal que vem ocorrendo inclusive no bioma pantanal, e não só na Amazônia e no Cerrado", destaca Scarlet. 

A bióloga lembra que, para que se formem as nuvens de chuva é necessário que as florestas estejam preservadas, visto que são os ambientes que concentram a umidade, formando nuvens de chuva que são deslocadas por correntes de vento chegando em determinadas regiões. 

Mas, diante de um cenário laranja, que vem sendo comparado aos filmes apocalípticos de Hollywood, a bióloga reforça que a solução para o probelma não tem base na fantasia, mas na ação concreta sob responsabilidade, principalmente, do governo. 

"Em primeiro lugar precisamos pensar em políticas públicas de prevenção de incêndios florestais e fiscalização dos mesmos, por órgãos do governo que sejam competentes e responsáveis", ressalta. 

Scarlet também acredita que a sociedade deve apostar no manejo adequado do fogo no pasto pela agropecuária, para que não haja nenhuma perda de controle. Por mais que seja proíbida pela legislação brasileira, a prática é comum e pode ter consequências devastadoras. 

A bióloga ainda cita duas outras ações práticas: Cessar o desmatamento florestal e iniciar o reflorestamento para reverter as perspectivas pessimistas para o próximo ano. 

"Sem um regime sazonal de chuvas, os próximos anos tendem a ser cada vez mais cruéis de estiagem, e o bioma Pantanal não é adaptado para permanecer sem a fase de inundação por longos períodos", conclui. 

Mayke Toscano

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Ações do governo 

Na última quarta-feira (16), o ministro do Desenvolvimento Regional Rogério Marinho garantiu um aporte financeiro de R$ 10,1 milhões para o governo estadual aplicar no combate às queimadas que atingem a região do Pantanal.

Já na quinta (17), a Câmara dos Deputados instalou a Comissão Externa de Investigação das queimadas no País. O colegiado conta com 19 parlamentares de diversos partidos.

LEIA MAIS: Parlamentares realizam diligências no Pantanal e buscam soluções para incêndios

A primeira tarefa da Comissão será a visita in loco ao Pantanal no sábado (19), em Poconé. A visita será conjunta: deputados, senadores, deputados estaduais e a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT).

Durante o fim de semana, os parlamentares realizarão diligências para avaliar a extensão da devastação no Pantanal. 

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