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Brasil Domingo, 04 de Outubro de 2026, 06:30 - A | A

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Quase 40% expressam desalento em relação à disputa eleitoral

CONTEÚDO ESTADÃO
da Redação

A imagem de 2008 do então governador de São Paulo, José Serra (PSDB), 'vacinando' o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou guardada na memória da arquiteta Paula Falcão. Hoje, aos 30 anos, ela lembra como se fosse ontem da fotografia que viu aos 12 e que lhe chamou a atenção pelo tom descontraído com que os adversários posaram para promover uma campanha de imunização. Uma cena que, para ela, parece difícil de se repetir.

"Antes havia uma certa cordialidade entre os adversários políticos. Tinha um respeito, mesmo que não fosse genuíno. Hoje, não. É um atacando o outro. E no fim das contas, a política se tornou mais sobre derrotar o outro do que sobre vencer e fazer algo de bom para a sociedade", disse a arquiteta, contando que está "desanimada" com o rumo da disputa presidencial deste ano.

O sentimento de Paula é compartilhado por uma parcela relevante do eleitorado. Segundo a pesquisa Travessia, realizada com exclusividade para o Estadão, quase quatro a cada dez eleitores afirmaram sentir "descrença", "revolta" ou "desânimo" em relação à disputa presidencial. Outros 42,5% falaram em "esperança" com a eleição; 5,1%, em "alegria"; 12,6%, sobre "nenhum"; e 3% não souberam ou não quiseram responder.

Paula lembrou que quando votou em Lula para presidente, em 2022, chegou à urna com esperança de que o País pudesse melhorar. Quatro anos depois, porém, percebe poucas mudanças positivas e tem a sensação de que nunca houve tantas crises acontecendo ao mesmo tempo como agora. Ela admite ter dificuldade para acompanhar o noticiário.

Embora pretenda repetir o voto no petista hoje, por conta do que considera uma falta de alternativas viáveis, Paula disse que votará em Lula muito mais pela rejeição que nutre pelo bolsonarismo do que pela expectativa de que um novo governo Lula consiga melhorar o Brasil. "É um sentimento de desânimo, de 'tem que votar para não piorar'. Mas não acho que vai melhorar nada."

O voto motivado pela rejeição abrange quase a metade dos brasileiros. Segundo a pesquisa Travessia, 46% dizem que votarão em alguém só para um outro não ganhar. O porcentual é maior entre eleitores com renda de até dois salários mínimos (49,8%) e moradores da região Norte (51,2%). Já 49,4% do eleitorado geral afirma que a escolha será pautada pelas propostas ou pela admiração ao presidenciável.

O nutricionista Joás Garcia, de 22 anos, faz questão de dizer que tem pouca identificação com o plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele concorda com o senador quando o assunto é segurança pública e corte de impostos. E em nada mais. Sua escolha pelo filho de Jair Bolsonaro (PL) tem um motivo claro: o antipetismo.

"Meu voto no Flávio é 70% anti-PT. É voto útil", disse o nutricionista. "Votar em Flávio Bolsonaro não faz parte dos meus princípios. Voto nele por me enxergar dentro de um túnel sem saída, preso em um projeto de poder ultrapassado e notadamente abusivo do PT."

Garcia, que viveu sob governos petistas durante a maior parte de sua vida, avalia que, nos últimos anos, o Brasil regrediu ou ficou estagnado em diversos índices que ele considera importantes para o desenvolvimento de um país. "Especialmente neste mandato, de 2023 a 2026, a minha vida e a da minha família foi diretamente impactada pelo aumento ou criação de impostos - de que, sinceramente, não consigo enxergar retorno justificável no meu dia a dia."

Ao explicar sua escolha nas eleições deste ano, o nutricionista citou sua preocupação com a possibilidade de Lula indicar mais ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF) ressaltando que, neste mandato, o presidente indicou Cristiano Zanin, seu advogado e amigo de longa data, para uma vaga na Corte. Na avaliação de Garcia, as indicações do petista ao Supremo contribuíram para que ele obtivesse decisões favoráveis, o que o nutricionista classifica como algo "completamente antiético e inconstitucional".

"Lula poder ter até mais quatro ou cinco indicações se vencer as eleições significa, para mim, o selamento desse projeto de poder arquitetado pelo PT", disse o nutricionista.

DESCRENÇA

Para o cientista político Renato Dorgan, CEO do Travessia Pesquisas, existe entre a população brasileira uma descrença nas instituições e nos políticos do País - aprofundada com o escândalo do Banco Master, que implicou de forma inédita os Três Poderes da República. "O (banqueiro Daniel) Vorcaro escancarou uma corrupção desenfreada que já era sentida no Legislativo e no Executivo há muito tempo. Ele mostrou que quem tem dinheiro faz o que quiser com a política, com os juízes, com a classe artística, com a mídia, com tudo. Isso foi uma ducha de água fria na sociedade", explicou o especialista, que percebe também um desgaste com repetições de promessas que não se concretizam eleição após eleição.

Apesar do alto porcentual de esperança, Dorgan afirmou que esse sentimento não está necessariamente ligado à política. "O brasileiro sempre tem esperança. Ele é solar, é alegre, acredita na vida. Esperança na política é outra coisa", disse.

DESÂNIMO

A desmobilização dos eleitores preocupa as campanhas, que relatam dificuldades até para a distribuir santinhos e reunir apoiadores em comícios e carreatas. Na avaliação de Dorgan, o quadro de desânimo também se deve, em parte, à estratégia equivocada das campanhas de abandonar o debate de propostas e apostar principalmente no ambiente digital.

"A rede social mediocrizou a disputa, simplificou demais, e uma parcela da nova geração de marqueteiros tem culpa nisso. Eles acham que não é mais preciso discutir nada, que o povo não quer saber de proposta e só liga para ideologia e conteúdo rápido de redes sociais. E isso não é verdade. O povo ainda quer ouvir propostas, mesmo sem acreditar naquelas que se repetem."

O especialista acredita que o desengajamento pode levar a um aumento da abstenção, historicamente já elevada no Brasil. Segundo a pesquisa Travessia, 78,5% dos eleitores afirmaram que vão votar "com certeza" este ano. Outros 20,2% ainda não estão certos se irão às urnas; e 1,3% não souberam responder ou não responderam.

O porcentual dos que não têm certeza se irão votar é considerado alto, sobretudo porque o voto é obrigatório no Brasil e muitos eleitores podem se sentir constrangidos em admitir que não pretendem ir às urnas.

O levantamento mostrou que a disposição para votar é menor entre eleitores que ganham até dois salários mínimos e moram na Região Sudeste. Nesse segmento, 64,9% afirmaram que vão votar "com certeza", enquanto 31,5% não demonstraram essa convicção.

Segundo Dorgan, o aumento nesse índice tende a ser maior nos grandes centros, onde a população depende menos da política para viver. É o caso do estudante de Psicologia e entregador de aplicativo Vitor Sakugawa, de 23 anos. Ele disse que, se tiver tempo, pretende votar em branco ou nulo. Caso contrário, está disposto a arcar com a multa pela ausência.

INDIFERENÇA

Morador de São Paulo, Sakugawa acredita que nenhum presidente, seja ele de direita ou de esquerda, consiga promover mudanças nas condições atuais da política brasileira. "Nem Jesus consegue", disse. Sakugawa reclamou de promessas que não são cumpridas e de políticos que, na sua avaliação, colocam os próprios interesses acima de seu dever com a população. "No fim, é tudo pão e circo."

A principal razão apontada por quem não pretende votar é justamente não acreditar que a política seja capaz de produzir mudanças. Segundo a pesquisa Travessia, para 33,6%, "não importa quem se eleja, os políticos são todos iguais e nada muda". Outros 20,5% disseram que nunca votam, enquanto 15,8% afirmaram que não se interessam por política.

O desalento de Sakugawa também decorre das contradições que ele passou a enxergar entre o discurso e a atuação dos políticos. Ele conta que votou em Bolsonaro em 2018 motivado pela rejeição a Lula, mas que se decepcionou com o grupo político do ex-presidente. "Tem cara do PL e do PT festejando na festa do Vorcaro. O Flávio Bolsonaro diz que tem que prender bandido, mas tem envolvimento com miliciano e com banqueiro que roubou. É tudo muito contraditório." A pesquisa Travessia fez mil entrevistas pelo telefone com eleitores de todo o País entre os dias 23 e 25 de setembro. A margem de erro é de 3,1 pontos porcentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança, de 95%.

(Com Agência Estado)

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