* O artigo foi escrito por Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.
O mundo está usando tanta água doce em meio às consequências das mudanças climáticas que entrou em uma era de “falência hídrica”, com muitas regiões incapazes de se recuperar da frequente falta de água.
Cerca de 4 bilhões de pessoas — quase metade da população global — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês por ano, sem acesso a água suficiente para atender a todas as suas necessidades. Muitas outras pessoas estão vendo as consequências do déficit hídrico: reservatórios secos, cidades afundando, quebras de safra, racionamento de água e incêndios florestais e tempestades de areia e poeira mais frequentes.
Os sinais de falência hídrica estão por toda parte, desde Teerã, onde as secas e o uso insustentável da água esgotaram os reservatórios dos quais a capital iraniana depende, alimentando as tensões políticas, até os Estados Unidos, onde a demanda por água ultrapassou a oferta do Rio Colorado, uma fonte crucial de água potável e irrigação para sete estados americanos.
A falência hídrica não é apenas uma metáfora para o déficit hídrico. É uma condição crônica que se desenvolve quando um local usa mais água do que a natureza pode reabastecer de forma confiável e quando os danos aos ativos naturais que armazenam e filtram essa água, como aquíferos e zonas úmidas, se tornam difíceis de reverter.
Um novo estudo que conduzi com o Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde conclui que o mundo já ultrapassou o ponto das crises hídricas temporárias. Muitos sistemas hídricos não são mais capazes de retornar às suas condições naturais históricas. Esses sistemas estão em estado de fracasso – falência hídrica.
Como é a falência hídrica na vida real
Na falência financeira, os primeiros sinais de alerta muitas vezes parecem administráveis: atrasos nos pagamentos, empréstimos e venda de bens que você esperava manter. Então, a espiral se fecha.
A falência hídrica tem etapas semelhantes.
No início, extraímos um pouco mais de água subterrânea durante os anos de seca. Usamos bombas maiores e poços mais profundos. Transferimos água de uma bacia para outra. Drenamos pântanos e endireitamos rios para abrir espaço para fazendas e cidades.
Então, os custos ocultos aparecem. Os lagos encolhem ano após ano. Os poços precisam ser cada vez mais profundos. Rios que antes corriam o ano todo tornam-se sazonais. Água salgada invade os aquíferos.
Este último efeito, a subsidência, costuma surpreender as pessoas. Mas é um sinal característico da escassez de água. Quando as águas subterrâneas são bombeadas e usadas em excesso, a estrutura subterrânea, que retém esta água quase como uma esponja, pode entrar em colapso. Na Cidade do México, o solo está afundando cerca de 25 centímetros por ano. Uma vez que os poros ficam compactados, eles não podem ser simplesmente preenchidos novamente.
O relatório Global Water Bankruptcy, publicado em 20 de janeiro de 2026, documenta como isso está se tornando comum. A extração de água subterrânea contribuiu para um afundamento significativo do solo em mais de 6 milhões de quilômetros quadrados em todo mundo, incluindo áreas urbanas onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas. Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh estão entre os exemplos mais conhecidos na Ásia.
A agricultura é a maior consumidora de água do mundo, responsável por cerca de 70% do uso global de água doce . Quando uma região fica sem água, a agricultura se torna mais difícil e mais cara. Agricultores perdem seus empregos, tensões aumentam e a segurança nacional pode ser ameaçada.
Cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção global de alimentos estão concentradas em áreas onde a capacidade de armazenamento de água já está diminuindo ou é instável. Mais de 1,7 milhão de quilômetros quadrados de terras agrícolas irrigadas estão sob estresse hídrico alto ou muito alto. Isso ameaça a estabilidade do abastecimento alimentar em todo o mundo.
As secas estão também aumentando em duração, frequência e intensidade à medida que as temperaturas globais se elevam. Mais de 1,8 bilhão de pessoas — quase 1 em cada 4 seres humanos — enfrentaram condições de seca em vários momentos entre 2022 e 2023.
Esses números se traduzem em problemas reais: preços mais altos dos alimentos, escassez de energia hidrelétrica, riscos à saúde, desemprego, pressões migratórias, agitação social e conflitos.
Como chegamos a este ponto?
Todos os anos, a natureza dá a cada região uma “renda hídrica”, depositando chuva e neve. Pense nisso como uma conta corrente. Essa é a quantidade de água que recebemos a cada ano para gastar e compartilhar com a natureza.
Quando a demanda aumenta, podemos sacar de nossa conta poupança. Retiramos mais água subterrânea do que será reposta. Roubamos a parte da água necessária para a natureza e, nesse processo, drenamos as zonas úmidas. Isso pode funcionar por um tempo, assim como as dívidas podem financiar um estilo de vida perdulário por um tempo.
Essas fontes de água de longo prazo estão agora desaparecendo. O mundo perdeu mais de 4,1 milhões de quilômetros quadrados de zonas úmidas naturais ao longo de cinco décadas. As zonas úmidas não apenas retêm água. Elas também a limpam, amortecem inundações e sustentam plantas e animais selvagens.
A qualidade da água também está diminuindo. A poluição, a intrusão de água salgada e a salinização do solo podem tornar a água muito suja e salgada para uso, contribuindo para a falência hídrica.
As mudanças climáticas estão piorando a situação ao reduzir a precipitação em muitas áreas do mundo. O aquecimento global aumenta a demanda por água das culturas e a necessidade de eletricidade para bombear mais água. Também derrete geleiras que armazenam água doce.
Apesar desses problemas, países continuam a aumentar a retirada de água para apoiar a expansão de cidades, terras agrícolas, indústrias e agora centros de processamento de dados (datacenters) para aplicações de inteligência artificial (IA).
Nem todas as bacias hidrográficas e países estão em falência hídrica, mas as bacias estão interligadas por meio do comércio, da migração, do clima e de outros elementos-chave da natureza. A falência hídrica em uma área exercerá mais pressão sobre outras e pode aumentar as tensões locais e internacionais.
O que pode ser feito?
A falência financeira termina com a transformação dos gastos. A falência hídrica precisa da mesma abordagem:
Estancar a hemorragia: O primeiro passo é admitir que o balanço está no vermelho. Isso significa estabelecer limites de uso da água que reflitam a quantidade de água realmente disponível, em vez de apenas perfurar mais fundo e transferir o ônus para o futuro.
Proteja o capital natural – não apenas a água: Proteger as zonas úmidas, restaurar os rios, reconstruir a saúde do solo e gerenciar a recarga dos lençóis freáticos não são apenas coisas legais de se fazer. São essenciais para manter o abastecimento de água saudável, assim como um clima estável.
Use menos, mas faça isso de forma justa: Gerenciar a demanda por água tornou-se inevitável em muitos lugares, mas os planos de falência hídrica que cortam o abastecimento aos pobres enquanto protegem os poderosos fracassarão. Abordagens sérias incluem proteções sociais, apoio aos agricultores para a transição para culturas e sistemas menos intensivos em água e investimentos em eficiência hídrica.
Meça o que importa: muitos países ainda gerenciam a água com informações parciais. O sensoriamento remoto por satélite pode ajudar a monitorar o abastecimento e as tendências hídricas e fornecer alertas antecipados sobre o esgotamento das águas subterrâneas, subsidência do solo, perdas de zonas úmidas, recuo de geleiras e declínio da qualidade da água.
Faça planos para usar menos água: A parte mais difícil da falência é psicológica. Ela nos obriga a abandonar velhas referências. A falência hídrica exige redesenhar cidades, sistemas alimentares e economias para viver dentro de novos limites antes que esses limites se tornem ainda mais restritos.
Com a água, assim como com as finanças, a falência pode ser um ponto de inflexão. A Humanidade pode continuar gastando como se a natureza oferecesse crédito ilimitado, ou pode aprender a viver dentro de suas condições hidrológicas.
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