Os resultados também mostram que, muitas vezes, os consumidores entendem que esses produtos são bons para saúde, o que a pesquisa chama de "falsos saudáveis".
Um exemplo é o iogurte com sabor, considerado saudável por 52% dos entrevistados. Os nuggets preparados na fritadeira elétrica (air fryer) também entram nessa lista: 49% dos participantes classificaram esses itens como uma opção saudável.
No caso dos nuggets, as famílias ignoram o fato de o produto em si ser um ultraprocessado só por causa do uso da air fryer, que dispensa o óleo.
Rotulagem
Segundo Stephanie Amaral, oficial de saúde e nutrição do Unicef do Brasil, a não leitura dos rótulos está entre os principais motivos para as percepções equivocadas. Cerca de 55% dos participantes afirmaram nunca verificar o rótulo antes da compra e 26% declararam não compreender as informações ali presentes.
Outro ponto é a interpretação errônea da "lupa" de advertência presente na embalagem: aproximadamente 15% dos entrevistados acreditam que esse símbolo indica que o alimento é saudável ou superior aos demais, quando, na verdade, é o oposto. Ou seja: a lupa serve para alertar sobre o excesso de algum componente crítico para a saúde, como sódio, açúcar ou gordura.
O estudo ainda indica que o design das embalagens e o uso de frases como "rico em vitaminas, minerais ou proteínas" mascaram a natureza ultraprocessada do produto, confundindo ainda mais o consumidor. "As embalagens são lindas. Elas têm personagens da televisão bem conhecidos, o que acaba chamando a atenção do público infantil nas prateleiras", adiciona a nutricionista Thais Fernanda Pereira, do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas.
"O marketing direcionado ao público infantil é muito forte, o que acaba incentivando o consumo precoce de alimentos ultraprocessados, algo que não deveria ocorrer", destaca a nutricionista.
Lanches exigem atenção especial
O estudo analisou três comunidades de diferentes regiões do País: Pavuna (Rio de Janeiro/RJ), Ibura (Recife/PE) e Guamá (Belém/PA). Os resultados foram similares em todos os locais.
Os dados mostram que os lanches escolares são a refeição de maior exposição aos ultraprocessados: metade das crianças consumiu esses produtos neste momento, no dia anterior à pesquisa. No café da manhã, o índice cai para 27%. No almoço e no jantar, fica em 13%.
Diante disso, o Unicef defende a implementação de leis que restrinjam a venda e a publicidade de alimentos ultraprocessados dentro do ambiente escolar. Também recomenda que o tema da alimentação saudável seja incluído formalmente no currículo escolar.
Falta de tempo
A praticidade na hora do consumo é um fator decisivo para a escolha dos ultraprocessados. Segundo Stephanie, em mais de 80% dos casos, a mãe é a única responsável por todo o ciclo alimentar - desde a compra e o preparo até o oferecimento da comida à criança. A participação dos homens é significativamente menor. Nesse cenário, esses itens se tornam uma solução para a falta de tempo para cozinhar.
Stephanie ainda destaca que, para mães em comunidades vulneráveis, comprar alimentos perecíveis (como legumes e verduras) é visto como um risco financeiro. Elas optam pelos ultraprocessados por terem a certeza de que a criança irá aceitá-los, evitando "jogar dinheiro fora" caso o alimento saudável seja rejeitado.
"O consumo de ultraprocessados não é culpa da família ou uma falta de cuidado, mas uma combinação de fatores: correria na rotina, custo e falta de domínio técnico, no caso da leitura do rótulo", lista a nutricionista do Unicef.
Como identificar ultraprocessados?
A principal dica, segundo Thais, é ler o rótulo do produto. Quanto menor a quantidade de ingredientes, melhor tende a ser sua qualidade. Outra dica é verificar a data de validade. Alimentos com tempo de prateleira muito longo geralmente contêm mais aditivos químicos e passam por processos industriais pesados. O recomendado é focar em alimentos in natura ou minimamente processados.
Vale lembrar que o conceito de alimentos ultraprocessados foi criado em 2009 por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP) e tem quatro grupos:
- Alimentos in natura ou minimamente processados: são aqueles consumidos da maneira como vêm da natureza (folhas, sementes, raízes, ovos, etc) ou que passam por algum processo mínimo de processamento, mas sem adição de ingredientes (como os grãos de feijão, que são apenas secos e embalados ou os grãos de café, que são torrados e moídos para virar pó).
- Ingredientes culinários processados: são substâncias extraídas de alimentos do primeiro grupo por procedimentos físicos, como prensagem, centrifugação e concentração, segundo o Nupens. É o caso do azeite obtido de azeitonas, da manteiga proveniente do leite e do açúcar vindo da cana ou da beterraba.
- Alimentos processados: são os ingredientes do primeiro grupo (in natura ou minimamente processado) após passar por pequenas modificações que poderiam ser reproduzidas em ambiente doméstico, como conservas, geleias e pães artesanais.
- Ultraprocessados: grupo composto por alimentos e bebidas que foram submetidos a métodos mais agressivos de alteração do produto in natura, além da adição de substâncias de uso industrial, como aromatizantes, corantes, conservantes, emulsificantes e outros aditivos. Aqui, entram as bebidas lácteas, barrinhas de cereais, macarrão instantâneo, sucos em pó, nuggets de frango, bolachas e biscoitos, por exemplo.
Preparar marmitas em casa e congelá-las é uma alternativa para ter lanches práticos diante de uma rotina mais puxada. Segundo Thais, incluir os filhos no preparo das refeições também ajuda a melhorar a qualidade da dieta, já que facilita a aceitação de novos sabores. Se um alimento saudável for rejeitado, a recomendação é oferecer a mesma preparação de formas diferentes antes de desistir totalmente.
(Com Agência Estado)
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