Sexta-Feira, 18 de Setembro de 2020, 10h:02

Tamanho do texto A - A+

O ano do fogo

Por: MARCOS ROBERTO SOVINSKI

Reprodução

Coronel Sovinski

Se o ano de 2020 já era considerado um ano perdido, em vários aspectos, sobretudo devido a Pandemia Covid 19, agora já podemos colocar na conta mais um fator que tornará este ano lembrado no futuro. O ano do fogo já consumiu quase 20% do bioma pantaneiro com quase 3 milhões de hectares consumidos pelas chamas. Mas as queimadas não se resumem apenas ao Pantanal, pois temos visto imensas áreas sendo consumidas pelas chamas em diversos pontos do Estado de Mato Grosso.

O Pantanal é cercado pelo romantismo não apenas por questões ambientais, mas também pela música, pela culinária, pela cultura, pelo turismo e sobretudo por gerações e gerações que foram acostumadas a contemplar imagens impressionantes do local, com abundância de água, vegetação e animais, vivendo sempre em harmonia com o povo pantaneiro.

Sou pau-rodado oriundo do Paraná, e minhas referências em relação a Mato Grosso sempre foram dois fatores. O Operário de Várzea Grande que aparecia na loteria esportiva, pois tem o mesmo nome do Operário de Ponta Grossa minha cidade natal, e o Pantanal. A novela Pantanal da Rede Manchete, certamente contribuiu para que as imagens deste local incrível ficassem registradas na mente, como um paraíso intocável.

Depois que virei mato-grossense, já estive no Pantanal por diversas vezes, seja em pescaria com amigos, em passeios, ou mesmo a trabalho da Polícia Militar, e pude constatar que tudo aquilo que imaginava, não chegava nem perto da real beleza e imensidão do lugar.

Já são mais de 15 mil focos de incêndio na região em 2020 e já é o maior número desde que este indicador foi adotado para monitorar as queimadas no Estado. De acordo com as previsões meteorológicas, ainda irá aumentar muito, pois somente a chuva poderá aliviar a situação. O Pantanal levará algum tempo para recuperar a vegetação, mas algumas espécies animais jamais irão se recompor. O Parque Estadual Encontro das Águas, em Poconé, considerado o maior refúgio de onças pintadas no mundo, teve 85% de sua área queimada. Para onde elas foram?

As fotos e vídeos que circulam na internet nos mostram uma pequena parte da tragédia, mas na verdade, a maioria da população se mostra mais preocupada com a fumaça nas cidades prejudicando suas atividades de esporte e lazer, com as cinzas que sujam calçadas e roupas no varal, do que com a fauna e flora afetados na região.

Louvável a atuação de voluntários, bombeiros e demais órgãos no combate às chamas, mas a região é muito maior do que seu esforço. Temos a maior frota de aviões agrícolas do país que poderiam ser usados, mas daí já é querer demais, afinal as lavouras estão queimando também. Perdeu-se o controle, ou melhor, nunca tivemos o controle.

O Governo Federal prometeu 10 milhões de reais, o que convenhamos chegou tarde, pois até se comprar algo que possa ser útil, as chuvas já terão feito sua parte. Achar um culpado para essa tragédia será pauta jornalística e policial em breve, mas nada que repare o dano causado. Depois da casa arrombada, não adianta trancar a janela.

Para quem não sabe, ou não mora em Mato Grosso, nesta época do ano sempre ocorrem incêndios na região, por diversos aspectos, mas o longo tempo sem chuva, mais de 120 dias, talvez seja o principal fator. Ou seja, todos sabíamos que iria queimar, mas não sabíamos o quanto. Então todos somos responsáveis, alguns um pouco mais, outros, um pouco menos.

Infelizmente somos surpreendidos todos os anos pelas queimadas, mesmo sabendo que todo ano elas estão aí, destruindo tudo.

Somos surpreendidos por datas de aniversário na família e esquecemos do presente.

Somos surpreendidos pelo Natal e corremos ao Shopping no dia 24.

Somos surpreendidos pela Páscoa e só achamos ovos quebrados no mercado.

Somos surpreendidos pelo início das aulas e enfrentamos longas filas na papelaria, quando os preços estão o olho da cara.

Somos surpreendidos pelo Carnaval, opa, por este não, as bandas são contratadas um mês antes.

Somos surpreendidos pelas eleições, ah... essas muito menos... Será que os novos prefeitos a serem eleitos neste ano, serão surpreendidos em 2021? Será que seus programas de governo têm ao menos uma linha sobre o assunto?

 

(*) MARCOS ROBERTO SOVINSKI é Coronel Veterano da Polícia Militar de Mato Grosso e especialista em segurança pública. 

Avalie esta matéria: Gostei +10 | Não gostei

Leia mais sobre este assunto




3 Comentários

Helton Luiz Pereira - 21/09/2020

Realmente é uma perda lastimável, principalmente para a fauna que acaba sendo a maior prejudicada. Fugir para onde??? Fugir como?? Animais e Aves morrem em suas tocas e ninhos. Prevenção e educação sobre o tema seriam bons caminhos para o futuro.

HELIO CHOCIAI - 21/09/2020

Infelizmente essa situação não é específica da região do Pantanal , é um mal generalizado, que atinge todo o Brasil, a falta de planejamento e preparo pra situações de emergências é muito comum, não há interesse em se investir em planejamento de prevenção, enquanto não se mudar essa cultura, continuaremos a ver tragédias como as queimadas no Pantanal e Amazônia, Brumadinhos , morros que soterram bairros inteiros nas encostas, desmoronamentos, enchentes, etc... o Ser Humano precisa entender que é responsável pelo seus atos e também pelas consequências deles, quanto aos políticos, com raras exceções, estão mais preocupados em deixar obras que possam ser vistas e admiradas, do que evitar um desastre que só é lembrado e falado quando acontece! Abraço Coronel.

HILTON E. WESTPHAL - 21/09/2020

Abordagem bastante objetiva. Excelente!

INíCIO
ANTERIOR
PRÓXIMA
ÚLTIMA







Mais Comentadas