Domingo, 12 de Janeiro de 2014, 08h:06

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Um médico, um relógio japonês e o peru de um malandro...

Por: NELSON SEVERINO





Enquanto esperavam sair mais uma forma de pão de queijo assado no Bar do João, na Galeria GG, no centro de Cuiabá, dois amigos, um deles médico recém chegado de uma viagem ao Japão em meados da década de 70, conversam sobre o extraordinário avanço da tecnologia dos orientais.

O médico, empolgado com o que viu durante a sua permanência no Japão, falava sobre um relógio de pulso comprado naquele país – que provavelmente já estava partindo para a tecnologia digital – que era um negócio do outro mundo. Pena que naquele dia, ele saiu de casa apressado e esqueceu o relógio que mostrava com orgulho aos amigos.

No bar, como sempre cheio de gente disputando os saborosos pães de queijo do João, alguns curiosos, como que não queriam nada, acompanhavam disfarçadamente o animado bate-papo entre os dois.

Na manhã daquele mesmo dia, um bem falante indivíduo chega na casa do médico do relógio puxando um grande peru, com uma cordinha amarrada no pescoço.

Gabriel Soares / Hipernotícias

Atendido pela esposa do médico, o chegado soltou o verbo calmamente: “Dona, o doutor mandou eu deixar este peru aqui e levar o relógio japonês pra ele mostrar para uns amigos...”.

Dali a pouco a mulher liga para o marido: “Que é que você quer que eu faça com esse peru se o Natal está tão longe, meu querido! Você sabe que eu não mato nem galinha, quanto mais um peru...”

"Você não está passando bem, querida? Que história mais maluca é esta de matar um peru?"

A mulher detalhou-lhe a conversa com o homem do peru.

Aí o médico lembrou-se do bate-papo no bar do João com um amigo e matou a charada na hora: tinha caído num verdadeiro golpe...

Depois de uma pausa para clarear os pensamentos dos dois, principalmente dela, que se sentia culpada por ter caído na conversa do malandro, ele fez uma proposta à esposa:

"Vamos transformar esse golpe numa festa: ligue para uns amigos nossos e convide-os para comer uma “peruzada” lá em casa fora do Natal. Que tal neste final de semana? Vou providenciar alguém para matar e preparar o peru, tá certo?"

"Combinado", respondeu a mulher.

Acertaram os detalhes finais na hora do almoço, inclusive fazendo, juntos, a lista de convidados – uma meia dúzia de casais.


Nem bem a mulher terminou de fazer os telefonemas-convites, já no fim da tarde, pois naqueles velhos tempos as ligações telefônicas eram um drama, aparece um outro indivíduo na casa do médico.

"Dona, a Polícia prendeu o malandro que deu o golpe no seu marido para ficar com o relógio japonês dele".

"E cadê o relógio que ele levou?"

"O doutor delegado não está acreditando na história do peru e quer o bicho lá na delegacia para comprovar o fato e devolver o relógio. Como a delegacia é aqui perto, eu levo o peru lá e aí é só o seu marido ir pegar o relógio e se quiser mandar dar uma peia no malandro".

Assim que o indivíduo virou a esquina puxando o peru pelo pescoço, usando a mesma cordinha com a qual o penoso havia chegado à casa, a mulher ligou para o marido, bufando de raiva".

"Que palhaçada é essa? Com que cara eu vou ligar para nossos amigos, dizendo que não vai ter mais “peruzada”? Fala! Fala! Tenha paciência!..."

"Pelo amor de Deus, do que você está falando? Que história é essa? Não estou entendendo nada, criatura de Deus!"

A mulher detalhou a nova história sobre o peru e cujo final nunca foi contado no bar do João, que, conforme um velho advogado que ficou como inquilino do prédio da Galeria GG durante muitos anos, virou uma grande central de fofocas e boataria da Rua 13 de Junho..."

Conformado com a perda do relógio e do peru, que, aliás, nunca chegou à delegacia alguma de Cuiabá, o médico sugeriu à esposa adquirir outro, o que não seria nada fácil, pois não era época de Natal e naqueles tempos não tinha essa moleza dos dias atuais de se comprar a ave já temperada e que vem até com um dispositivo que dispara um assovio quando já está assada!

Mas a mulher não quis saber mais de peru....
Credito: Gabriel Soare/Hipernotícias
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