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Quinta-feira, 21 de Julho de 2011, 10h:55

Arrependimento

O vereador Toninho de Souza se diz arrependido de ter votado, e Everton Pop assume que votou na concessão da Sanecap. Galindo deveria se arrepender com um ou asssumir como o outro, em vez de ficar tentando explicar o inexplicável, como na piada da vaca

KLEBER LIMA

 

Mayke Toscano

 

Depois da lambança da semana passada, quando a Câmara de Cuiabá aprovou a lei da criação da Agência Reguladora, embutida, sorrateiramente - feito Cavalo de Tróia -, da permissão para a concessão dos serviços de saneamento da capital, o vereador Toninho de Souza (ainda PDT, prestes a se filiar ao PSD) veio a público declarar-se arrependido, justificando que votou o projeto sem conhecê-lo direito.

Como diria um amigo gaúcho: “Mas bah, thcê, não diga uma barbaridade destas!”. E o espanto do gaúcho dessa vez não seria exagero de gaúcho. É de fato espantosamente espantoso que um vereador, jornalista de profissão – portanto, sujeito esclarecido e letrado -, tenha votado um projeto dessa envergadura sem tê-lo lido ou sem tê-lo compreendido.

Não tomo o exemplo do Toninho para execrá-lo, por não achar que mereça e por não ser esse o meu papel. Apenas para ilustrar o tamanho da lambança. Em certo sentido, seu gesto foi virtuoso, desde que esteja fazendo uma autocrítica sincera, e isso veremos na prática, observando suas posições sobre o assunto doravante.

Ontem conversei com o vereador – e também comunicador – Everton Pop (PP, com destino ao PSD) pelo Twitter. Perguntei-lhe se também estaria arrependido e se concorda com a forma como o projeto foi aprovado. Ele me respondeu que votou consciente, porque acredita que a medida vai solucionar o problema principal, que, no seu entender, é garantir água de qualidade na torneira do consumidor.

Mas, reconheceu que a forma de aprovação do projeto, sem discussão pública, foi inadequada. “Esse foi sim um erro, porque se ouvir os moradores, querem água na torneira. Porém, reconheço que dá essa interpretação. Se ouvido primeiro, o povo iria reforçar o projeto. Pois querem água”, escreveu-me ele no Twitter.

Percebo também um enorme esforço do prefeito Chico Galindo e sua equipe, e do vereador e prefeito em exercício no episódio, Júlio Pinheiro, ambos do PTB, em tentar explicar que não houve trapaça da sua parte, e que, rigorosamente, não há que se falar em privatização da Sanecap, mas apenas em concessão dos serviços.

A rigor, a lei aprovada retoma da Sanecap os serviços de saneamento da cidade para a municipalidade. A lei, desde a mensagem que encaminhou o projeto à Câmara, diz claramente que “o município poderá explorar o serviço por meio de concessão”, e que a Sanecap prestará o serviço “até a assunção da concessionária”. (Não sei qual destas partes Toninho de Souza não leu ou não entendeu, já que estão nos artigos 3º e 4º do projeto, logo, na primeira página).

Quando ocorrer a concessão, a Sanecap, na prática, será extinta ou liquidada, e não privatizada. Nisso Galindo e Pinheiro têm razão, embora devam compreender que é natural que haja confusão semântica entre “privatizar” e “conceder à iniciativa privada”.

Sabedores que são da forte carga ideológica e até emocional que envolve o tema - como foi registrado em todas as vezes que o assunto foi proposto por gestões anteriores – se não trapacearam a opinião pública, como negam, foram de um amadorismo extremo, que também faria espantar até o meu exagerado amigo gaúcho. A meu ver, deveriam ter adotado a postura de Everton Pop e assumido claramente o que queriam antes de aprovar na moita o projeto, ou deveriam agora seguir o exemplo (não disse que ele era virtuoso) do Toninho de Souza e pedirem desculpas à população pela falha de encaminhamento, declarando-se arrependidos. Afinal, como diz um outro amigo meu, dessa vez um baiano, “errar é humano, mas persistir no erro é burrice”. A menos que queiram passar o resto do ano tentando explicar o que não se explica, mas se desculpa ou se assume.

Por falar em burro, lembro-me de anedota contada pelo amigo Mário Marques: Certa vez um vaqueiro tentava amarrar o rabo da vaca no esteio do celeiro, já que sua cauda o impedia de ordenhá-la. Na falta de corda, tirou o cinto, subiu no tamborete e se pôs a amarrar o rabo do animal. Sem o cinto, sua calça caiu. Nisso, sua esposa entra pelo celeiro, e, ao defrontar-se com aquela cena inusitada, pergunta-lhe, espantada, o que era aquilo. De pronto, o vaqueiro respondeu-lhe: “Estou sodomizando a vaca, não está vendo!”. Moral da história: às vezes é melhor assumir o erro que tentar explicar o inexplicável.

(*) KLEBER LIMA é jornalista, consultor de marketing e Diretor de HiperNotícias. E-mail: kleber@hipernoticias.com.br. Twitter: @kkleberlima