Copa Pantanal Terça-feira, 25 de Outubro de 2011, 18:39 - A | A

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ROLETA RUSSA

Advogado da Global Tech também advogou para Silval e diretor da Agecopa

A escalada de José Eduardo Polisel, 28 anos, três de profissão: em menos de um ano foi advogado eleitoral de Silval, defende Jeferson de Castro e representa empresa que conseguiu uma dispensa de licitação de R$ 14 milhões da Agecopa

JORGE ESTEVÃO E HÉRICA TEIXEIRA

Mayke Toscano/Hipernotícias

Apesar de ter 28 anos, jovem advogado conseguiu passar de uma simples assessoria para o governador a representante de uma empresa que ganhou contrato milionário

Apresentado pelo próprio Governo do Estado de Mato Grosso como sócio-proprietário da empresa Global Tech em reportagem publicada no dia 4 de julho de 2011 no portal da Secretaria de Comunicação (veja aqui), o jovem advogado José Eduardo Polisel, 28 anos, compôs a comitiva oficial de Mato Grosso que foi à Rússia em julho deste ano para fechar a compra de equipamentos de segurança no valor de R$ 14 milhões, com dispensa de licitação, o que provocou reação do Ministério Público de Mato Grosso.

As relações entre o advogado José Eduardo Polisel e o Governo do Estado não param por aí. Ele foi contratado para trabalhar na campanha do governador Silval Barbosa, candidato à reeleição em 2010, e assinou vários recursos que ainda hoje tramitam no Tribunal Regional Eleitoral (TRE/MT) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Veja aqui.

Mas o que há de errado em um advogado defender o governador durante a campanha? Aparentemente, nada, não fosse por alguns detalhes.

Um deles é que Polisel se formou em Direito no ano de 2007, sendo que somente em 2008 entrou para o seleto grupo de pessoas aprovadas no Exame da Ordem. Dois anos depois fazia parte de uma das maiores bancas de advogados já montada numa campanha em Mato Grosso para defender Silval Barbosa na eleição passada.

O jovem advogado foi contratado pelo Coordenador Jurídico da campanha, Francisco Anis Faiad, ex-presidente da OAB/MT, conforme ele mesmo confirmou em entrevista por telefone ao HiperNotícias na tarde desta terça-feira (25). Era Faiad quem fazia os contratos e os pagamentos dos advogados, inclusive o de Polisel, em valores não revelados.

O contrato acabou no último dia de campanha, 3 de outubro do ano passado, segundo Faiad. Indagado se Polisel ainda advoga para Silval, Faiad disse que não. “Apenas eu e o Dr. José do Patrocínio advogamos para o governador nessas matérias eleitorais”, explicando que o nome de Polisel ainda figura nos processos porque ele era um dos advogados na época em que foram gerados.

Outro detalhe é que o fim do contrato eleitoral não encerrou a relação de Polisel com o governador. Nove meses depois das eleições, o jovem advogado viajou para Rússia com Silval e diretores da extinta Agecopa, e participou da efetivação do contrato de R$ 14 milhões envolvendo a empresa Global Tech, a estatal russa Gorizont e o Governo de Mato Grosso, por meio da Agecopa. São 10 veículos Land Rover equipados com radares de última geração fabricados pela estatal russa, equipamentos que, segundo o governo do Estado, serão destinados para o monitoramento da fronteira seca de Mato Grosso com a Bolívia.

O terceiro detalhe é que a relação de José Eduardo Polisel com o Governo do Estado se estreita ainda mais com a revelação de que o advogado possui vínculos com Jeferson de Castro, o ex-diretor de Finanças da extinta Agecopa e atual secretário–adjunto de Projetos Especiais da recém-criada Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo 2014 (Secopa) – responsáveis pela negociação e compra milionária.

Polisel advoga para Jeferson numa causa que envolve a Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) Hotel Mirante, nome oficial do famoso ponto de visitação em Chapada dos Guimarães, de propriedade do adjunto da Secopa desde 2000, segundo ele afirma. HiperNoticias tem cópia da procuração de Jeferson a Polisel, com data de 8 de junho passado. Um dia depois, o advogado participou de uma audiência pública na Comarca de Chapada dos Guimarães, em que foi discutida a situação da RPPN de Jeferson, o cliente do polivalente advogado.

Mayke Toscano/Hipernotícias

Sede da Global Tech funciona na Avenida Fernando Correa, na saída para Rondonópolis, num pequeno imóvel
APENAS ADVOGADO

O quarto detalhe que chama a atenção das relações do advogado é o fato de ele ter sido anunciado pelo próprio governo como sócio-proprietário da Global Tech. Porém, isso não é verdade. Polisel esclarece que sequer conhece os verdadeiros donos da empresa, já que foi contratado por um diretor do Grupo, que envolve ainda a empresa “Elite Segurança”, se chama Guilherme Nascentes Carvalho.

De fato, Polisel não é sócio-proprietário da Global Tech, empresa que pertence a Adhemar Luiz de Carvalho Lima e Carlos Alberto Pereira Marsiglia, que residem em Brasília, confirme o contrato social em poder de HiperNoticias.

Polisel recebeu a reportagem do HiperNoticias na manhã desta terça-feira (25) em seu escritório, na Avenida Rubens de Mendonça, em Cuiabá, e confirmou que trabalhou na campanha de Silval Barbosa, a convite do coordenador da assessoria jurídica, Francisco Anis Faiad, mas que atualmente não desempenha nenhuma função para o governador de Mato Grosso.

José Polisel questionou a veiculação do nome dele na imprensa como sendo um dos sócios da empresa Global Tech. O advogado argumentou que não sabe como tudo isso aconteceu.

“Sou apenas advogado da empresa, aquilo de dizer que era sócio foi um erro cometido pela assessoria do governo, que eu só soube depois de ver na imprensa. Eu deveria ter corrigido isso na época, mas não imaginei que fosse gerar tanto problema”, explica o advogado.

Polisel confirmou, contudo, que fez parte da comitiva que foi à Rússia em julho deste ano, mas afirma que foi apenas como advogado da empresa e não como sócio, e ainda que não foi na comitiva oficial, e sim a convite da empresa.

Porém, a informação dada pelo advogado é contraditória com o que foi divulgado pelo Governo do Estado. Em uma notícia produzida pela assessoria da extinta Agecopa, lê-se o seguinte trecho: “’Milésimos de graus centígrados são capturados pelo radar, o que significa dizer que o sensor térmico identifica até mesmo a respiração de uma pessoa’, afirma o sócio-proprietário da empresa Global Tech, José Eduardo Polisel”.

Como Polisel garante que é um simples assessor jurídico da Global Tech, seu domínio e conhecimentos técnicos sobre equipamentos tão sofisticados chegam a ser admiráveis.

“Não sou o dono da Global Tech, sou advogado da empresa. A Global Tech é de Brasília, esse grupo veio para Cuiabá. Fui procurado para ser assessor jurídico, prestei alguns serviços como advogado. Meu nome está no contrato apenas como assessor jurídico, não tem nada a ver (eu ser sócio). Eu faço toda a parte da área jurídica, não sei quem colocou isso. Não tenho nenhuma assinatura neste contrato”, declara Polisel.

“Eu participei desde o começo de toda a parte jurídica. São duas empresas, uma russa e uma brasileira, então a própria empresa me convidou para ir junto nesta viagem. Foi também um representante de Brasília para viagem”, salientou.

COINCIDÊNCIAS

O último detalhe da curiosa participação do advogado José Polisel como membro de uma das bancas mais famosas de advogados eleitorais e ainda ser o procurador jurídico de uma empresa com estofo para celebrar contrato milionário com o Governo de Mato Grosso, além de advogar para um diretor da extinta Agecopa em matéria de direito ambiental – tudo isso com menos de três anos de militância -, é que tudo não passa de uma “grande coincidência”.

Jeferson de Castro garante que conheceu Polisel casualmente, em Brasília, onde trabalhava no Escritório de Representação de Mato Grosso, “há cerca de uns três anos”. Por essa razão o contratou para defendê-lo nos assuntos relacionados à sua RPPN no mirante da Chapada. “Ninguém me indicou não”, garante Jeferson.

Francisco Faiad também afasta qualquer indicação do nome de Polisel para sua equipe de advogados na eleição do ano passado, afirmando que “contratei o escritório dele porque eles são das minhas relações profissionais”.

SURPRESA

Faiad chegou a duvidar que Polisel pudesse ter participado de alguma forma do contrato da Global Tech com a Agecopa, ou mesmo que ele pudesse ter relações com o Governo do Estado.

“Ele não tem acesso para isso não”, repetiu três vezes. Faiad só se convenceu quando a reportagem lhe garantiu que Polisel não só tem acesso ao governador, como viajou com ele para a Rússia e advoga para uma empresa que acaba de fechar um contrato de R$ 14 milhões com a extinta Agecopa, com dispensa de licitação. “Ah, bom, eu não sabia”, reagiu.

O Ministério Público do Estado (MPE) abriu procedimento para apurar a aquisição dos 10 veículos e seus itens de segurança com a dispensa de licitação feita pela Agecopa. Quanto a isso, Polisel disse que não tem nada a temer e se for chamado para dar declarações, vai comparecer. “Estou aberto para responder, sem problemas”, resumiu.

 

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Cuiabano indignado 13/02/2012

Ele foi indicado pelo ex-conselheiro federal, em cujo escritório um determinado PROCURADOR DO ESTADO trabalhou, procurador este que por sinal é CUNHADO desse sr. advogado. Nesse angu tem caroço!

LD 26/10/2011

O que me surpeende nessa matéria é a enfase dada as ações de uma única pessoa, enquanto parece haver tantos envolvidos. A impressão que passa é de que existe um acordo para o \"sacrifício\" de uma pessoa para que os demais sejam \"salvos\". E o que mais chama a atenção é que todas as acusações parecem recair exatamente sobre o mais jovem...seria ele o elo mais fraco da corrente?

jorge caolho 26/10/2011

Ficou olhando como o povo cuiabano é cego, ou melhor, caolho, quero que os bandidos continuem fazendo o que fazem, tragam armass, drogas, contrabando...tdo vindo da Bolivia, e que levem os seus carros que vcs compram com maior sacrificio para serem trocados por droga...como o governo fiscaliza?? pq nao fazem um entrevista com os policiais do Gefron e perguntam da necessidade desses veiculos??? Agora pq advogou para uma banca juridica no periodo eleitoral, para aquele que ganhou a eleição, nao pode advogar mais para ninguem?? ou nenhuma empresa que contate o governo??? o que dizer da Presidente Dilma que nomeou a nova Ministra do TSe uma ex- advogada que trabalhoou na sua banca jurudica tambem??

Firmino 26/10/2011

O que envolve a coisa pública não basta parecer correto. E nesse caso sequer parece correto. Ai tem. Seria interessante levantar todas as ações que esse advogado possui e com quem ele atua (outros advogados). E quais são as relações "profissionais" que o Dr. Faiad possui com esse advogado?

Paulo Mattos 26/10/2011

Confesso estar surpreendido com o site HiperNotícias, uma vez sendo a primeira que o acesso. Esta matéria, pormenorizada, minudente, explicativa e muito bem redigida demonstram o profissionalismo dos jornalistas que atuam no site, louvando eu, neste caso, a capacidade reconhecida de Jorge Estevão e Hérica. Continuem assim sempre. Quanto ao cerne da matéria, só posso concluir: todos são cúmplices, até prova em contrário.

X3 25/10/2011

Ele foi indiccado para a banca jurídica sim. E quem fez isso foi um ex conselheiro federal suplente da Oab

6 comentários

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