Artigos Terça-feira, 01 de Novembro de 2011, 11:46 - A | A

Terça-feira, 01 de Novembro de 2011, 11h:46 - A | A

Adeus, senhor Pereira

Convidamos o jornalista Alvaro Pereira Junior a praticar a sua nobre profissão, o jornalismo: sair de trás do teclado rancoroso e de um estado de preguiça investigativa e cinismo intelectual. Ou então será “Adeus, sr. Pereira”.

PABLO CAPILÉ

Internet

Na sua coluna na Ilustrada de 15/10/2011, “Adeus aos Indies”, o sr. Álvaro Pereira Júnior tenta reduzir a produção musical independente a uma cena preguiçosa, pouco criativa e oportunista.

Acontece que, no século 21, a melhor parte da música brasileira é independente. A revolução digital mudou para sempre hábitos de produção, circulação e consumo.

As grandes gravadoras insistem em tratar interessados em música como meros consumidores. É por isso que estão derretendo.

Foi-se o tempo em que os “críticos” cumeavam a pirâmide perversa do sucesso, num conluio incestuoso entre a indústria da música e a da mídia.

Não é a música que está morrendo, é a pirâmide. A música vai bem, obrigado.

Se essa nova expressão musical não é audível da “torre de cristal”, não é um problema da cena, e sim do pouco (ou nenhum) esforço do jornalista.

É a cegueira de quem olha para o retrovisor e pensa que está olhando para o futuro.

Roqueiro rebelde de gabinete, o sr. Pereira fabrica polêmica contra dois fenômenos reais: a cena musical paulista, que chama pejorativamente de “indie-sambinha”, e o Circuito Fora do Eixo, que reúne cem coletivos de 27 Estados em todo o país, que chama de “indies estatais”.

De Macapá a Santa Maria (RS), de Rio Branco (AC) ao Recife, passando por Belém, Salvador, Brasília, Belo Horizonte etc. até o eixo Rio-São Paulo, os artistas se organizam tendo o público em rede como aliado.

O fim do modelão concentrador dá espaço para a diversidade estética e territorial no Brasil de verdade.

Os 2.000 participantes do Fora do Eixo, nos 5.000 shows e 180 festivais anuais que produzem, circulando 10 mil bandas, têm sim acesso, através de editais, a verbas públicas municipais, estaduais e federais.

É bom que governos tenham políticas culturais para além do escopo (mercadológico) da Lei Rouanet. Para falar de referências caras ao sr. Pereira, é assim nos EUA. E o que seria da música e da cultura inglesa sem a megaestatal BBC?

Essa foi uma conquista da gestão Gil/Juca Ferreira no Ministério da Cultura.

Atacando essa gestão e a programação do Sesc, que sempre pensaram a produção e circulação independente de uma perspectiva dinâmica e democrática, o sr. Pereira mostra de que lado está: o da desinformação.

É por isso que o convidamos a praticar a sua nobre profissão, o jornalismo: sair de trás do teclado rancoroso e de um estado de preguiça investigativa e cinismo intelectual. Ou então será “Adeus, sr. Pereira”.

(*)  PABLO CAPILÉ é gestor do circuito Fora Do Eixo. Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 29.10.

VEJA ABAIXO ARTIGO DO ALVARO PEREIRA JÚNIOR

Adeus aos Indies*

Atirei no que vi, acertei no que não vi, sobrou para mim. Falo de minha coluna passada, em que critiquei um nicho da MPB paulistana, o indie-sambinha, e a reverência que recebe da imprensa musical.
Escrevi que esses artistas, tão bajulados, acomodaram-se tocando em Sescs e no Studio SP, casa para 500 pessoas na rua Augusta.

A coluna tinha um evidente tom de provocação, mas não se dirigia a ninguém em especial. Avaliava, em termos gerais, o cenário independente ("indie"). Sua dificuldade -ou desinteresse- de atrair mais público, e sua dependência de esquemas estatais (editais de cultura) ou paraestatais (os Sescs).

Um jornalista da Ilustrada, setorista no lado ímpar do Baixo Augusta, não gostou. Vestiu a carapuça e, como aquele fã do Restart, foi correndo xingar muito no Twitter.

Diante da polêmica disparada pelo repórter -e do fato de ela ter sido descoberta na web por uma leitora, que a enviou à ombudsman-, a Ilustrada publicou uma reportagem, em 7/10, debatendo meu texto.
Nela, o setorista tuiteiro foi destaque. Suas palavras a meu respeito, antes restritas a seus parcos seguidores, ganharam espaço no jornal.

Ele aproveitou a chance. Reiterou as ofensas e garantiu não ser amigo do músico Thiago Pethit, a quem procurou no Twitter para atacar a coluna (deve ser assim no mundo dos 140 caracteres: quando a chapa esquenta, você entra lá e faz agrados a gente que mal conhece).

Também explicou sua filosofia jornalística: "Se o cara que está surgindo lança um disco ruim, você não vai gastar espaço com ele".

O "Guardian", grande jornal inglês, faz diferente. Não poupa artistas iniciantes. Semana passada, publicou uma crítica, de Peter Robinson, à novíssima geração pop, "the new boring" ("os novos chatos"). A música que fazem é, segundo o "Guardian", "beige pop". Tipo indie-sambinha.

Outra leitura iluminadora é a revista "Mojo" de outubro. Nela, Nick Kent rememora uma crítica brutal que fez a um show do Pink Floyd, em 1974, no semanário "NME".

Pouco depois, encontrou um músico do Floyd numa festa. Pronto para ser surrado, Kent teve uma surpresa.

Agradecido, o roqueiro disse que o ataque levara a banda a refletir -e a se tornar melhor. Sobre indie-sambinha, era isso.

Agora, vamos a outro ramo independente, citado de passagem na última coluna: o indie estatal. Com representantes em todo o Brasil, tem foco no financiamento público (embora aceite também ajuda privada).

Sua expressão maior é o Fora do Eixo, uma central que aglutina vários grupos produtores de arte.

O Fora do Eixo surgiu em 2005, em Cuiabá, e prosperou sob Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura. Com Ana de Hollanda, perdeu espaço. Há alguns meses, transferiu a sede para São Paulo.

Sua expressão-chave é "cadeia produtiva". Se você perguntar a um Fora do Eixo sobre o tempo, ele dirá que a "cadeia produtiva do processo de formação de cristais de gelo no interior de cúmulos-nimbos está se intensificando". Significa que vai chover.

Como quem os critica é rotulado de "direitista", indico esta análise de esquerda, de José Arbex Jr., sobre o FdE.

E recomendo vivamente esta entrevista do cantor China, também apresentador da MTV. Trata da necessidade -ou não- de o modelo Fora do Eixo existir. E discute até que ponto da carreira cabe pedir verba pública.

Como vimos, indie-sambinha e indie estatal não são iguais. Mas algumas coisas os unem. Como seu porto seguro paulistano, o Studio SP. Sobre este, escrevi que "opera em uma interface entre o mundo artístico e o político-partidário que prefiro não conhecer".

Na Ilustrada, o dono rebateu: "É natural que o novo modelo de negócios seja diferente dos jabás e da indústria com a qual ele está acostumado". Decifrar o que essa resposta tem a ver com o que eu disse é missão para um Champollion, um Alan Turing. Mas tento.

Como empresário bem relacionado e em rápida ascensão, é natural que o proprietário do Studio SP se veja cercado de uma claque. Talvez, nessa turma, haja jornalistas parceiros. Se houver, é isso: fui confundido com um deles. Esses, sim, sabem tudo de jabá. Adeus, indie-sambinha; adeus, indie estatal. Se possível, até nunca mais.

(*) ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR é graduado em química e jornalismo pela USP, com especialização em jornalismo científico pelo MIT. Trabalha no programa "Fantástico", na TV Globo. Artigo publicado orignalmente na Folha de S.Paulo de 15.10.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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