Segunda-Feira, 18 de Novembro de 2019, 13h:20

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A República em Mato Grosso -2

Por: SUELME FERNANDES

Divulgação

Suelme Evangelista

A bovinocultura extensiva mereceu destaque no hino de Mato Grosso pois já nessa época o estado era o quarto maior rebanho de gado do país (1920), inclusive com uma boa indústria de processamento (8 saladeiros) indústrias que produziam charque, caldo, extrato de carne e couro na região de Cáceres e Cuiabá. No início do séc. XX existia um rebanho de 2.757.550 cabeças, menos de 10% das atuais 30 milhões de cabeças. Não é à toa que no Palácio Paiaguás (1977) tem um painel na sua fachada do artista Humberto Espindola denominado bovinocultura, pois desde sempre Mato Grosso possui infinitamente mais rebanho bovino no pasto do que gente nas ruas. “No teu verde planalto escampado E nos teus pantanais como o mar Vive solto aos milhões, o teu gado Em mimosas pastagens sem par!”.

Apesar dessas riquezas e potencial produtivo as comunicações ou infraestrutura sempre foram um desafio, e ainda é até hoje. Praticamente inexistia rodagens, a ligação essencialmente fluvial, a própria notícia da proclamação levou quase 6 meses para chegar em Mato Grosso através da hidrovia Paraguai-Paraná, único transporte existente pelo qual alcançava-se os mercados externos na bacia platina e a capital Rio de Janeiro.  

Destaco aqui o hercúleo o notável trabalho desenvolvido por Mal. Cândido Rondon com suas linhas telegráficas que antes da virada do século XX já estavam em andamento os trabalhos para ligar a capital do Mato Grosso ao restante do país através do telégrafo e, em 1891, foi concluído o trecho de 580 km de linha telegráfica entre Cuiabá e uma estação no oeste de Goiás, em 1906 ligou Cuiabá a Cáceres totalizando 16 estações e 1.667 km de linhas telegráficas, consolidando a presença do Estado brasileiro na região de fronteira com o Paraguai e a Bolívia. Não se pode contar a história da república brasileira e de Mato Grosso sem mencionar esse corajoso e determinado nativo sem comentar a política dos aldeamentos dos indígenas e as cartas geográficas demarcatórias.

Do ponto de vista político houve uma desrotinização completa da política regional, tendo sido empossados 27 governadores (média de 1 governador por ano, imaginem as brigas homéricas entre os coronéis nas disputas pelo poder e o caos administrativo) não por acaso, 4 importantes ruas de Cuiabá são dedicadas a alguns desses coronéis: Antônio Maria Coelho, Pedro Celestino, Generoso Ponce e Joaquim Murtinho. Desse total de 27 executivos, 14 foram nomeados administrativamente pelo presidente da república, 02 eram presidentes da Assembleia Legislativa e apenas nove deles foram eleitos, 30% do total.

Quando digo “eleitos”, refiro-me aos votos de 3% da população total do Estado (92.880 hab.), algo em torno de 2.700 pessoas, pois nessa época eram excluídos desse direito: mulheres, analfabetos, menores de 21 anos e estrangeiros.

O positivismo republicano pregou que a educação era o caminho para civilização, no entanto, na primeira república, 82% da população do Estado ainda era analfabeta e a rede escolar pública da época não chegava a 10 escolas, em 2019, esse problema ainda não foi resolvido, apesar que o índice de analfabetismo caiu para 8,5% em 2018. 

Houve outras tentativas de integração nacional através das ferrovias: Madeira Mamoré (que nem chegou a ser concluída) e a estrada Noroeste do Brasil que ligava São Paulo a Corumbá na região sul mato-grossense, foi o primeiro passo pra divisão dos dois Estados que ocorreu mais tarde em 1979. Inclusive Dom Aquino foi eleito para pacificar uma disputa entre as duas regiões que ocorria no início do século. O hino trata dessas disputas em duas passagens: “Dos teus bravos a glória se expande De Dourados até Corumbá” “Ouve, pois, nossas juras solenes De fazermos em paz e união” a menção a esses dois municípios depois  foi objeto de calorosos debates na assembleia legislativa na época e tempos depois, propuseram inclusive a retirada dos dois municípios da letra após a separação.

No quesito democracia e das políticas públicas acredito que o Estado avançou bastante em relação ao desenvolvimento econômico e seus desafios, mas muitas coisas ainda se assemelham aos longínquos anos de 1889: os inúmeros conflitos e disputas de terras, a estrutura precária do Estado e de suas finanças e da logística, apesar da atualmente mais da metade da população escolher seus dirigentes e ter uma maior estabilidade política.

Termino com a poética do belo hino do Estado ainda pouco conhecido e cantado nas escolas e seu clamor pelo progresso que está na bandeira do Brasil: “Teu progresso imortal como a fênix Que ainda timbra o teu nobre brasão”. No brasão de Mato Groso existe uma frase em latim “virtus et sapiência” que em português literal quer dizer “que a virtude seja mais importante que o dinheiro”. Essa sem dúvida é o grande sonho que nos acalenta nesses 130 anos de Estado brasileiro: ter um dia os direitos iguais de fato e uma república com a maioria dos cidadãos e políticos culturalmente honestos.

 

(*) SUELME FERNANDES é mestre em História e Analista Político.

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